Entrevista – Ana Casaca: «Escrever um projecto como este foi um verdadeiro desafio»

O Quinto Canal traz até si uma entrevista com Ana Casaca, autora de Amor Amor e Lua de Mel, e vencedora dos Prémios do Quinto Canal 2021 na categoria de Melhor Autora.


Amor Amor, que a SIC exibiu durante o último ano, contou a história de Linda e Romeu, interpretados por Joana Santos e Ricardo Pereira. A novela musical chega ao fim no domingo, mas na próxima semana estreia Lua de Mel.

Em 1995, a Ana ingressou na licenciatura em Direito e mais tarde abandonou a área. Não lamenta ter preterido a carreira de jurista? 

Não me arrependo nada, teria dado uma péssima advogada. Ter de me cingir à “letra da lei” nunca foi para mim. O curso de Direito foi um verdadeiro martírio, mas já que o tinha começado, estava determinada em terminá-lo…  E percebi que me deu alguma bagagem, em termos de expor as minhas ideias e de organizar o meu raciocínio.

O que recorda da Ana que dava os primeiros passos na escrita com Manuel Arouca, no começo do novo milénio?

Era uma estudante de Direito, com uma oportunidade no mundo da escrita para televisão, foi muito complicado não largar logo o curso. Mas o Manuel Arouca fez-me prometer que não o faria. Era tudo novo e entusiasmante para mim e era uma época em que não se escrevia tanto para os constrangimentos da televisão, havia mais liberdade orçamental e criativa.

O que têm em comum a Ana que escreve romances e a Ana que escreve para televisão? O que as move?

A Ana que escreve romances é alguém que escreve de forma muito mais íntima e a única coisa que a move é o desejo de escrever e de partilhar com os outros uma história que faça com que se sintam menos sós, naquilo que vivem, ou sentem. A Ana que escreve para a televisão é alguém menos literal, mais coloquial, que tenta constantemente colocar-se “nos sapatos” dos outros, de forma a dar voz a personagens tão diferentes entre si. É uma Ana que não pode fechar-se no seu mundo, que não pode ter preconceitos, que tem de saber falar como os outros falam, de entender como os outros entendem. Nem sempre é fácil, mas é um excelente exercício de humildade, pois aquilo que escrevemos está sob constante escrutínio, não há lugar a egos.

Enquanto guionista mulher que está há vinte anos no mercado audiovisual português sente que as mulheres já atingiram um patamar de igualdade com os homens ou ainda há um percurso a fazer?

Penso que existe ainda um caminho a percorrer, pois, muitas vezes, sinto que é preciso termos uma linguagem dita mais masculina para nos fazermos valer e eu não tenho grande jeito para isso.

Amor Amor estreou em Janeiro de 2021, num momento em que o país tinha a vida altamente condicionada pelas contingências pandémicas. De que modo procurou lidar com esse contexto?

Escrever um projeto como este, cujo objectivo era também fazer com que as pessoas se abstraíssem um pouco da realidade em que estavam, através da leveza e do humor, foi um verdadeiro desafio, porque, mais uma vez tive de fazer o exercício de esquecer um pouco a minha própria realidade para mergulhar nesse objectivo: contar uma história que fizesse sonhar, rir….

Embora tivessem havido anteriormente ficções com personagens ligadas à música Amor Amor foi a primeira novela portuguesa a colocar a música na sua história central. O que lhe fez acreditar que esta história seria bem recebida pelo público?

Foi uma ideia do Daniel Oliveira e do Daniel Cruzeiro. Eles queriam uma história no mundo da música popular. Assim que ouvi esse mote, entusiasmei-me muito, confesso e soube logo que poderia ser bem recebida, se a música fosse tratada sem qualquer preconceito. Se a abraçasse como parte da vida de todos nós.



Como foi o hiato entre a conclusão da escrita de Amor Amor e arranque de Lua de Mel? De que modo dissociou os dois projetos?

 Não houve um hiato, assim que concluí a escrita de Amor Amor surgiu quase logo este desafio.

Lua de Mel é um crossover criado no âmbito da celebração dos 30 anos da SIC. No resgate das personagens carismáticas da história da ficção da emissora, como descreve o trabalho de encontrar o tom certo da essência delas e enquadrá-las na história da novela?

Muito complicado e desafiante. Mais uma vez, o mote foi lançado pelo Daniel Oliveira e, tal como a ideia da música popular portuguesa, senti que era algo que podia resultar. Falei com as autoras/autor dos projetos onde tinham entrado as personagens que considerava mais icónicas, para me situar, depois pensei que havia um espaço de tempo em que essas personagens tinham continuado a viver, apesar de as histórias terem terminado e foi esse exercício que fiz: Onde estaria Nazaré, o que poderia conduzi-la a Penafiel? E Prazeres? O que poderia ter-lhe acontecido entretanto? Como poderia ela ter ido parar ao mesmo destino? E fiz isto para todas as personagens.

Que desafios considera que ficção portuguesa deve enfrentar actualmente? 

Penso que as pessoas querem, cada vez mais, histórias mais curtas, que compitam com aquilo que têm no streaming. Hoje é tudo muito mais imediato e ninguém gosta de esperar uma eternidade por um desfecho.

Pode adiantar-nos alguma coisa sobre projectos futuros?

Isso agora….



Nota: Esta entrevista foi concedida com base no antigo acordo ortográfico.

Rúben Gomes

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