Entrevista – Maria João Costa: «Cada episódio de uma novela é uma espécie de rascunho do episódio ideal que poderia vir a ser»

Na semana em que termina Amar Demais e estreia Pecado, o Quinto Canal traz até si uma entrevista com Maria João Costa, a autora das duas histórias, e vencedora dos Prémios Quinto Canal 2020 na categoria de “Melhor Autora”.


 

Amar Demais, que a TVI exibiu durante o último ano, contou a história de Zeca e Ema, interpretados por Graciano Dias e Ana Varela. No dia seguinte após o final da novela, chega-nos a série Pecado, gravada no Alentejo, com realização de António Borges Correia.

A Maria João estudou Direito. O que a levou a transitar para o jornalismo, o mercado editorial e o argumentismo?

Comecei a trabalhar como jornalista no segundo ano da faculdade. Fui convidada para trabalhar na NTV (o novo canal de informação da RTP à época), onde fizemos um curso intensivo de jornalistas, onde aprendíamos a fazer tudo sozinhos (filmar, recolher a notícia, editar…). Acabei por deixar duas cadeiras do curso por fazer, pois já trabalhava e acabaram por não me fazer falta. Depois dessa passagem pela RTP, em 2004, fui para o Brasil, e na sequência disso comecei a trabalhar para a Globo, no GNT Portugal. Quando o canal fechou em Portugal, em 2006, transitei para a área editorial. As coisas aconteceram naturalmente. Queria fazer coisas interessantes e o mercado editorial surgiu nesse sentido (Dom Quixote/Leya). Em 2012 voltei para o Brasil, para abrir o escritório da LeYa no Rio de Janeiro. E ao mesmo tempo comecei a escrever. A mudança de vida, para o guionismo a tempo inteiro, só acontece em 2016.

Em 2018 ganhou o Emmy Internacional de Melhor Telenovela com Ouro Verde. Essa conquista mudou alguma coisa na sua vida?

Foi uma conquista muito positiva, mas que em termos práticos não mudou quase nada, na verdade. Os prémios são um reconhecimento do nosso trabalho e são ótimos por isso, mas são efémeros. Sabemos que se o projeto seguinte não for um sucesso de nada adiantam. É evidente que no meu caso, e como era praticamente uma desconhecida no audiovisual português, quando os ganhei eles vieram como uma espécie de confirmação de que estávamos a fazer a coisa certa, para quem talvez questionasse “quem é esta?”. Vieram, portanto, para consolidar a minha existência no mercado e isso foi positivo para mim, claro.

Entre muitos países, Ouro Verde foi exibida recentemente no Brasil, pela Band. Qual é o feedback que recebeu?

Já recebia muito feedback antes de a novela passar no Brasil, pois já viam online e escreviam-me. Durante a novela em si, tive feedback positivo mas não foi a mesma coisa de quando foi transmitido aqui. Muitos contactavam-me ainda quando estava em Portugal.

Amar Demais foi gravada entre janeiro e dezembro do ano passado, passando por contingências desde a interrupção abrupta das gravações até à perda de dois atores. De que forma lidou com as vicissitudes que envolveram a produção da novela?

Foi um período muito complicado para todos, porque coincidiu com o início do coronavírus. Estava tudo muito nervoso e não se sabia a gravidade real da situação. Ainda assim, tive que continuar a escrever. No primeiro momento foi muito complicado, porque eu estava nervosa, como todos, e só queria ver notícias. Depois disso, acontece a tragédia com o Pedro Lima, que nos impactou muito a todos, especialmente aos colegas que tiveram que regravar as cenas que tinham feito com ele. A Fernanda Serrano, por exemplo, além de serem muito amigos. Curiosamente, quando isso aconteceu tinha fechado um episódio com uma cena do Pedro e, portanto, tinha que começar o seguinte com ele, mas não conseguia escrever;  demorei uns dias a retomar o trabalho. Quando voltei quis fazer uma espécie homenagem à vida, com a cena em que o Peter (Joaquim Nicolau) recebe um transplante do irmão. Deixei inclusive uma nota para os atores no final do episódio onde explicava isso. Quando as gravações pararam, para mim foi um alívio, na verdade, porque isso me deu o respiro de que precisava, tive tempo para recuperar o atraso da escrita e acabar a novela dentro do calendário, apesar de, pelo caminho, termos sofrido mais perdas, como a da Fernanda Lapa, que era uma atriz muito querida por todos. Tenho de dizer que a equipa lidou com estas adversidades com muito profissionalismo.

Que balanço faz de Amar Demais? Teria mudado muita coisa se o projeto estivesse a começar agora?

Tendo a não pensar muito nisso, no que já está feito. Até porque novelas são projetos tão longos que se formos a ver caso a caso, há sempre coisas que faríamos de um modo diferente se voltássemos atrás, ou tivéssemos mais tempo para pensar. É preciso entender que cada episódio de uma novela, para mim, é uma espécie de rascunho do episódio ideal que poderia vir a ser tendo em conta o tempo limitado que temos para escrever (o ritmo é de um episódio por dia); assim sendo, ele acaba por ser a melhor versão que aquele dia nos permitiu ter e temos de saber lidar com isso: saber que poderíamos fazer melhor, mas que não há tempo, há que seguir em frente. Na novela este é o grande desafio, porque não há tempo para reflexão, nem para voltar atrás.

Entre outras coisas, Amar Demais aborda temas como a violência doméstica, o assédio sexual e a especulação imobiliária. Como acha que uma novela pode servir para consciencializar o público sobre os problemas que marcam a sociedade?

Na minha ótica, a novela tem quase essa obrigação de tocar em temas que possam ter impacto junto do grande público. O Brasil, aliás, com as suas novelas, passou-nos essa tradição, pelo que para mim uma novela não deve ser feita apenas de amores impossíveis ou vinganças. Ela pode e deve ajudar a mudar mentalidades.

Quais são as diferenças que sente entre uma novela em exibição em que vai alterando a escrita consoante o que é pedido e uma obra fechada que não permite tantas alterações?

A mim não me pedem normalmente muitas alterações. Em “Valor da Vida” havia um ator que teve de sair e tivemos que adaptar parte da novela. Mas tirando casos pontuais não tenho tido crises dessas, felizmente. Já tive sim o caso de atores precisarem de sair da novela, por diversas razões, e ter a sorte de não ser necessário alterar nada sequer, pois como não tínhamos começado a emitir deu para trocar os atores desde início. Se o projeto estivesse no ar seria mais complicado, teríamos que arranjar outra solução para continuar.

A série Pecado conta uma história de amor que consequentemente coloca em causa a carreira e a vocação de um padre. Teve algum cuidado especial na abordagem da questão do celibato?

Tive o cuidado de estudar bem o tema. Até porque o que é fundamental entender é que o celibato não é um dogma de fé da igreja, uma verdade absoluta, é um mero regulamento, pelo que não se entende que ao dia de hoje a Igreja ainda não tenha revisto a sua posição quanto a este tema e se modernizado, ainda para mais quando continuamos a ler notícias sobre casos desses todas as semanas nos jornais.  Se o papa Francisco hoje em dia coloca a possibilidade de alguns padres não cumprirem o voto de celibato em áreas mais remotas do planeta, por entender que são humanos, e que podem querer ter uma vida emocional que os complete, por que não dar essa opção a todos de um modo geral, e cada um escolhe ou não o que faz?

De que forma espera que o público receba a história de Pecado?

Espero que bem. Apesar da trama central ser bastante clássica, o ponto de arranque da história é a derrocada de uma pedreira em Estremoz, que impacta a vida de todas as personagens, de diferentes formas. A trama é mais do que um amor proibido entre um padre e uma jovem. É um drama thrillesco.

Considera faltar alguma coisa à ficção portuguesa? Que desafios ela deve enfrentar?

A ficção portuguesa tem evoluído muito. Temos cada vez mais pessoas, formatos e projetos a ter reconhecimento internacional. Veja-se o caso do filme da Ana Rocha, “Listen”, tão aclamado no exterior. Temos séries a ser produzidas com plataformas estrangeiras, como temos novelas que ganham prémios internacionais. Isso como um todo é bom para o audiovisual português, mas ainda há muito caminho a percorrer, e nenhum de nós faz nada isoladamente. É por isso que temos de nos conseguir vender como setor, como um todo. Espanha fez isso, por exemplo e conseguiu-se consolidar como um país que produz ótima ficção. Portugal tem que trabalhar nesse sentido e já começou a fazê-lo: os canais começaram a apostar noutros formatos além da novela, têm vontade de deixar a nossa fronteira. Mas este é um enorme desafio, porque somos um país pequeno e há sempre a contingência financeira.

Pode adiantar alguma coisa sobre projetos futuros?

Não posso, porque estas coisas não se podem falar antes do tempo.


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