Entrevista – Francisco Antunez: «O que pretendo é continuar a contar boas histórias e que a nossa ficção continue a evoluir»

O Quinto Canal traz até si uma entrevista com Francisco Antunez, realizador das novelas Quer o Destino e Para Sempre.


Quer o Destino foi exibida entre março e outubro do ano passado, e esteve nomeada para o último Emmy Internacional de Melhor Telenovela. Para Sempre estreou no último mês e está em exibição na TVI, sendo protagonizada por Diogo Morgado e Inês Castel-Branco.

No seu percurso profissional, já tem uma considerável experiência na realização de produções audiovisuais que vão desde telenovelas, séries, filmes e videoclipes. O que gostaria de ter oportunidade de fazer e ainda não fez?

Mais do que fazer novos formatos, é ter a oportunidade de explorar mais géneros, mais conceitos. Nunca fiz nada de época, ou de ficção científica por exemplo. O que pretendo é continuar a contar boas histórias e que a nossa ficção continue a evoluir. Temos um país cheio de talentos mas precisamos que as nossas condições se aproximem cada vez mais das que existem noutros países. E não falo só de mais dinheiro ou tempo para produzir, falo de toda uma reestruturação que é necessária. É preciso olhar para a indústria audiovisual de outra forma, com a noção que a cultura tem que ser cuidada, e que é preciso criar muito mais benefícios ao nível empresarial, à semelhança do que acontece na maior parte de outros países, para que o nosso mercado seja competitivo.

Viveu dois anos em Angola, onde dirigiu a novela Jikulumessu, com a qual teve a sua primeira nomeação para o Emmy Internacional. Qual é o balanço que faz da ficção produzida nos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa)?

Foi uma experiência incrível a que vivi em Angola, sobretudo em termos de aprendizagem de vida, e da absorção de uma nova cultura, muito diferente, mas com muitas semelhanças também com a nossa. A ficção local ainda tem um longo caminho a percorrer, mas a matéria prima está lá, um talento e uma generosidade enormes, e isso ficou provado com a nomeação. A questão é que, para haver evolução, o trabalho tem que estar constantemente a ser desenvolvido, e as condicionantes adjacentes não permitiram que a qualidade de produção mantivesse o nível que já tinha sido alcançado. E tenho pena que isso tenha acontecido. Angola é um país maravilhoso, que fiquei a amar, onde fiz grandes amigos, e para onde voltaria facilmente.

Quer o Destino é uma adaptação do original chileno Amanda. Como é a responsabilidade, enquanto realizador, de fazer uma adaptação?

O realizador tem que contar a história da melhor forma possível, e como é óbvio, existir uma visão já feita traz-nos, por um lado, a possibilidade de ter referências, mas por outro, o desafio de fazer melhor do que o que já foi feito. O original chileno tem muita qualidade e teve muito sucesso no seu país, e o México também já tinha feito uma adaptação que correu muito bem. Acredito que a nossa adaptação suplantou todas, e isso começou logo na escrita, muito pelo incrível olhar da Helena Amaral, a nossa autora, que mais do que adaptar, criou um “novo original”. Deu-nos os ingredientes essenciais para podermos criar todo um conceito estético adequado à história e ao ambiente, e foi sem dúvida uma das razões do sucesso de Quer o Destino.

Quer o Destino estreou a 23 de março de 2020, poucos dias após o decreto do estado de emergência, tendo inclusive as gravações suspensas durante dois meses e meio. Como foi a administração dessas contingências advindas da pandemia?

Foi muito difícil. Estávamos prestes a estrear quando aconteceu. Parámos durante dois meses, mas unimo-nos tanto nessa fase, que, quando voltámos, estávamos cheios de vontade de estarmos juntos e fazermos algo especial. Sem dúvida que se refletiu no que fizemos.

Quer o Destino esteve nomeada para a última edição do Emmy Internacional, na categoria de Melhor Telenovela. Como recebeu a notícia?

Fiquei extremamente feliz quando soube da notícia. Estava muito confiante na nomeação, porque sempre acreditei muito no projeto, mas foi a loucura total quando me ligaram a informar.

O seu projeto mais recente é a novela Para Sempre, que foi gravada entre fevereiro e setembro deste ano. Como é estrear uma novela totalmente gravada?

É diferente, tem desvantagens, mas eu procuro focar-me sempre no lado das vantagens. Obviamente que não temos noção do que o público está a sentir, e isso é muito importante, mas ao mesmo tempo, essa não-influência exterior, também nos permite mantermos nos fiéis a uma ideia e acreditarmos nela até ao fim. E que é o processo normal num filme ou numa série. O público só vê depois de estar tudo feito.

Para Sempre tem sido divulgada como “uma novela que poderia ser vista no cinema”. Que aspetos diferenciam esta novela das outras produções deste formato?

A abordagem estética, tanto da realização, como da fotografia, foi um pouco mais arrojada do que é normal neste género de formato. Claro que só é possível, porque a história, que em muitas partes é um policial mais obscuro, permite nos levar a construção nesse sentido. Essa linha da narrativa deu-nos a possibilidade de termos esse espaço, mais próximo do que é feito num filme ou numa série.

Enquanto profissional que já trabalhou no estrangeiro, considera que estamos distantes da qualidade do que se faz nos outros países no que concerne ao mercado audiovisual?

Em termos de talento não estamos nada distantes, antes pelo contrário. A grande diferença tem a ver com as condições logísticas e financeiras, obviamente também porque o nosso mercado é pequeno. Neste momento, e apesar do fosso comparativo de investimento ser enorme, em muitos formatos, rivalizamos com qualquer país do mundo. Com mais condições, estaríamos sem dúvidas ainda mais fortes.

Pode adiantar-nos alguma coisa sobre futuros projetos?

Estou neste momento a finalizar a edição de um filme de natal, que já está a ser anunciado, para a TVI. E depois estão mais alguns projetos em andamento, mas não posso revelar detalhes.


Rúben Gomes

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