George Moura, Luísa Lima e Sergio Goldenberg

«Onde Está Meu Coração»: Entrevista com os autores George Moura e Sergio Goldenberg

George Moura e Sergio Goldenberg têm filmes, séries, minisséries e programas nos seus currículos. E prémios, muitos, pelo aclamado trabalho dramatúrgico.


(entrevista gentilmente realizada e cedida pela Globo Portugal)

As suas histórias têm um olhar especial para a exaltação do papel determinante da mulher na sociedade, com fortes e sensíveis heroínas. É assim em O Canto da Sereia (2013), Amores Roubados (2014), O Rebu (2014) e Onde Nascem os Fortes (2018), obras da dupla. Agora, na série Onde Está Meu Coração, reafirmam o fascínio por personagens mulheres com todas as suas complexidades e com um denominador comum: o poder do amor feminino.


Qual foi a inspiração para a série? O que os levou a escrever sobre o tema?

George Moura: Para qualquer que seja a plataforma, eu me dedico sempre a escrever sobre temas que são, de alguma maneira, reflexões do comportamento humano. A ideia de tocar a sensibilidade das pessoas, para que elas olhem sobre alguns aspectos da vida que, às vezes, por seus cotidianos, elas não têm o habito de olhar, é uma das funções da dramaturgia. Aprendi isso com os poetas, que têm o dom de escrever sobre algo do cotidiano, fazendo com que você passe a enxergar as coisas de uma forma nunca vista antes. Um dos princípios para a escolha do tema central desta série é simples: todos nós conhecemos alguém ou já ouvimos alguma história que envolva a dependência química, seja a de bebidas, drogas ou qualquer outro tipo. E isso me fez pensar que esse é um terreno vasto, grande e promissor para construir uma história. ‘Onde Está Meu Coração’ é uma série sobre uma médica chamada Amanda, envolta em um grande problema com a dependência química, que mostra uma questão inerente a qualquer pessoa nessa situação: ela não adoece sozinha; as pessoas à sua volta, familiares e amigos, adoecem junto. E isso é importante de ser retratado e discutido em uma obra de ficção.

Sergio Goldenberg: Eu convivi com famílias que viveram problemas como o da Amanda, nossa protagonista. É muito triste e difícil. O dependente químico, muitas vezes, não admite que deixou de ser simplesmente um cara animado e festeiro. Amigos e a própria família começam a evitá-lo, a fugir, a esquecer. Pessoas com um quadro como o da Amanda ficam ingovernáveis e os riscos são muito grandes. Ela para de pensar no trabalho, na família, em todos os compromissos. A única preocupação é com a próxima dose. A ideia é mostrar como a dependência toma conta de Amanda e que não existe uma única solução. ‘Onde Está Meu Coração’ mostra as dificuldades de recuperação, mas é principalmente uma história de redenção.

Por que conduzir esse tema por uma personagem da classe média alta?

George Moura: É importante tratarmos desse assunto em uma classe social em que as necessidades básicas de um ser humano não são um problema, em que estão resolvidas, para mostrar que a dependência química não é uma questão de sobrevivência. Não é porque a pessoa não tem uma condição financeira favorável, não tem oportunidades, que ela recorre à bebida ou à droga. A classe média alta, em geral, tem estabilidade financeira, mas, mesmo assim, busca a droga. Há um buraco, um abismo existencial de uma ordem que não é material.

Sergio Goldenberg: A dependência química é comum em todas as classes sociais, mas as pessoas não falam sobre isso, têm vergonha. É como uma derrota pessoal.

Quais foram as pesquisas e referências para compor os personagens e todo o contexto onde eles estão inseridos? Teremos, por exemplo, um espaço citado como cracolândia privê.

George Moura: Uma vez, li sobre a existência de um lugar, em São Paulo, onde usuários mais abastados pagavam pela droga e pelo uso do espaço para poderem consumi-la sem serem importunados pela polícia. Esse local realmente existe. Isso combate o mito de que o crack, especificamente, está associado à miserabilidade e nos mostra que há, de fato, um crescimento nos últimos anos do consumo por pessoas de classes mais altas. Tivemos conversas com médicos e psiquiatras que atendem em consultórios particulares caros, diretores e médicos de clínicas de reabilitação. Foi uma pesquisa bem ampla. Não que acreditemos que essa pesquisa, esse mergulho, nos trouxe todas as respostas nem que conseguimos tratar o tema por completo em uma série de 10 episódios. Sempre há aspectos a serem tratados, dramas a serem abordados, mas tivemos uma investigação bem profunda para construir essa dramaturgia que, embora totalmente ficcional, é muito crível, verossímil, e será tratada com a complexidade que o tema requer, de forma responsável e consequente.

Sergio Goldenberg: Eu trabalhei um tempo com documentários e fui assistente do Eduardo Coutinho, cineasta e jornalista brasileiro. Depois, fiz jornalismo na televisão. Então, tenho bastante experiência com pesquisas desse tipo. Claro que buscamos, em primeiro lugar, referências de reportagens, pesquisas científicas, livros e filmes, mas a nossa principal fonte, no caso desse trabalho, foi a investigação de campo. Fomos em reuniões dos Alcóolicos Anônimos e dos Narcóticos Anônimos, hospitais e clínicas. Lembro, inclusive, de um rapaz, numa reunião do NA, descrevendo seu vigésimo dia limpo, ainda com as mãos trêmulas e a voz embargada. Difícil não se comover.

Qual a importância de tratar a dependência química de forma humanizada durante toda a série?

George Moura: O ser humano é fascinante por sua complexidade e singularidade. Cada um tem seu jeito de estar no mundo. Para nós, uma das coisas mais incríveis na dependência química é o por que uma pessoa usa a droga e lida com isso socialmente, e por que a outra acaba se viciando, ou seja, tem o gatilho da dependência. Nós não temos essa resposta. A única coisa que se sabe é que as pessoas se viciam sim e que cada um reage de forma diferente aos diversos tratamentos existentes, com o afeto como maior colaboração nesses casos. O afeto e o amor são sentimentos da mesma natureza, efêmera, enigmática, e poética da falta. A falta que temos de dinheiro e de amor é o que nos move, mas também é o que nos paralisa e nos joga em um buraco.

Sergio Goldenberg: Todos os anos, o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) recebe dezenas de milhares de pedidos de licença médica por dependência química. Não temos como empurrar esse assunto para debaixo do tapete e precisamos encarar esse problema e discutir soluções, nem que seja sobre como diminuir os danos. No caso do usuário de drogas, é um problema de saúde, não de polícia. Muitos casos de recuperação estão aí para provar que o dependente químico não é um fraco ou um derrotado, como muitos afirmam. A série é uma oportunidade de olhar mais de perto para esse grave problema.

Além da Amanda, protagonista, temos mais três personagens centrais da trama. Falem um pouco sobre eles. 

George Moura e Sergio Goldenberg: Sofia (Mariana Lima) é uma mulher inteligente, brilhante, bem-sucedida e que, por conta das suas responsabilidades no trabalho, acaba agindo dentro de casa como se estivesse gerenciando uma grande empresa. Por conta do desgaste no seu casamento com David, ela foi perdendo um pouco, dentro de si, do frescor da relação. Mas é uma mãe gigante, de muita força e que jamais vai deixar a filha, dependente química, para trás.

David (Fábio Assunção) é um homem inteligente, encantador, divertido, excelente médico e idealista, que acredita que a medicina não se baseia somente em ganhar dinheiro, mas essencialmente em ajudar o próximo. Ele luta contra uma questão de saúde que o assombrou no passado e que vem à tona novamente com o problema de Amanda. A dependência química da filha desperta o seu lado negro, o levando a ter uma atitude extremada em relação a ela. Ele vê nela o que não quer mais ser e isso o desestabiliza profundamente.

Já Miguel (Daniel de Oliveira) é um cara inteligente, bonito, bacana, um grande arquiteto, mas sofre de algum modo com a dependência do que chamamos de ‘consumo de status’. Ele entra em uma roda viva de querer ter carro, dinheiro, bens materiais e, quando Amanda começa a usar drogas, isso acaba interferindo no seu dia a dia. Então, ele decide abrir mão do casamento em um certo momento, apesar de ter nela o seu grande amor.

Vocês já trabalharam com a Luisa Lima em outras obras, como em Onde Nascem os Fortes e o O Rebu. Como é essa parceria?

George Moura: Conheci a Luísa pelas mãos de José Luiz Villamarim, na época que ela ainda era sua assistente de direção. De lá para cá, quando trabalhamos juntos, vi Luísa crescer e se revelar uma diretora com um delicado e firme olhar para os enquadramentos e para a condução dos atores no set de filmagem. Mas, sobretudo, por sua inquietação, identifiquei em Luísa uma artista afinada com seu tempo. Onde Está Meu Coração é seu primeiro trabalho como diretora artística e tem sido uma alegria vê-la desabrochar e surpreender.

Sergio Goldenberg: Diretores e autores têm que caminhar juntos na televisão, senão o trem descarrila. Uma honra e uma alegria dividir esse trabalho com Luisa.


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