Entrevista – Nuno Duarte: « Acho importantíssimo demonstrar que a ficção nacional tem méritos próprios»

Dias após a inclusão de Terra Nova no catálogo da HBO Portugal, o Quinto Canal traz até si uma entrevista exclusiva com Nuno Duarte, um dos autores da série.


«Terra Nova» é escrita por Artur Ribeiro e Nuno Duarte, realizada por Joaquim Leitão, produção da Cinemate, filmada em Portugal e no Mar do Norte. A série de 13 episódios foi exibida pela RTP no ano passado e chega agora ao streaming.

Já escreveste peças de teatro, animação, banda desenhada, séries, novelas e cinema. O que Terra Nova trouxe de novo à tua trajetória como escritor?

Independentemente dos vários meios para os quais já escrevi, Terra Nova foi o projeto certo na altura certa, uma vez que tinha acabado de escrever um trabalho de grande fôlego, mas com grande controlo ao nível da produção. Desafiado pelo Artur Ribeiro, autor e realizador da versão cinematográfica, gozámos de uma liberdade de ação incomum no meio, que foi escrever toda a versão da série antes de qualquer interferência da produção ou da realização, num processo onde colocámos a criatividade completamente ao serviço da narrativa e das personagens.

Obviamente as vicissitudes de produção e a entrada de um realizador com visão própria para o projeto implicaram depois algumas mudanças em versões posteriores, mas acho verdadeiramente refrescante termos trabalhado com tanta liberdade e que isso se tornou numa mais valia evidente para a qualidade final da série e para mim enquanto escritor.

Terra Nova é baseada na obra O Lugre, de Bernardo Santareno. O que te motivou a ti e ao Artur Ribeiro a pegarem nesta história e adaptá-la para audiovisual?

Há uma história particularmente bonita por trás deste projeto, uma vez que partiu como um desafio do saudoso Nicolau Breyner ao Artur Ribeiro para que escrevesse a adaptação da obra original, que pretendia ele mesmo realizar. Infelizmente perdemos o Nicolau cedo demais, mas a semente do projeto criou raízes fortes, que levariam a que a Ana Costa da Cinemate, a produtora encarregue, estendesse o convite ao Artur para assinar também a realização do filme.

Após meses de pesquisa histórica e de outras obras de Bernardo Santareno, como “Nos mares do fim do mundo”, o Artur percebeu que teria material para muito mais que uma longa metragem e teve a ideia de sugerir algo pouco comum no panorama audiovisual nacional: que a série não fosse apenas uma versão mais extensa do filme, mas sim uma exploração de todo o universo de personagens e acontecimentos que o filme e os protagonistas aludiam.

Ser convidado por ele para criar as fundações deste mundo muito próprio, quer através dos plots e das personagens que fomos desenvolvendo e criando, acabou por gerar uma motivação muito especial, dada a envolvência do tema e a excelência dos atores e meios que tivemos à disposição.

Como foi o processo de escrita e produção deste projeto?

Partindo do guião base do filme, que é a âncora e a ênfase de toda a ação, começámos a estabelecer o passado e o futuro daquelas personagens, das suas linhagens, motivações e eventos que os levaram a ter as personalidades que os espectadores reconhecem.

Para isso, houve não só o cuidado de localizarmos a trama historicamente, quer nos hábitos e costumes sociais e políticos da era que retratamos, como ainda de usar padrões de discurso próprios da época e locais onde tudo acontece.

Tendo trabalhado em vários outros projetos com o Artur Ribeiro, temos um processo envolvente de troca de ideias e de escrita de guião que nos permite estar em permanente contacto e discussão quer das várias opções narrativas, quer de uma harmonização dos discursos das várias personagens que, às tantas, parecem escritas a uma só voz.


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Que mensagem esperas que os espetadores recebam da história de Terra Nova?

Acho sempre perigoso esperar que uma obra de ficção se traduza apenas numa única mensagem para os seus espectadores.

Idealmente, a minha ideia é que o caminho das personagens e a sequência da narrativa inspire cada espectador a tirar as suas próprias ilações. Um dos grandes dilemas da sociedade em que vivemos é que nos habituámos a uma espécie de karma ou justiça poética, quando, na verdade, a vida tem pouco desse tipo de “resolução cósmica”, ou lá como lhe queiramos chamar.

Acho que a série remete um pouco para isso e como talvez acabemos todos por dar pouca importância ao presente, vivendo obcecados quer com o peso do passado quer com a esperança de um melhor futuro.

Como encaras a chegada de Terra Nova à HBO Portugal?

Considerando a abrangência que as plataformas digitais de visionamento de conteúdos já têm no nosso mercado, acho de extrema importância que Terra Nova possa estar disponível para um público que normalmente prefere “fazer” a sua própria programação do que estar dependente da exibição periódica em canais de sinal aberto.

Este projeto nunca teria acontecido sem a aposta e exibição da RTP, mas, simultaneamente, o facto de estar disponível numa plataforma como a HBO Portugal, torna-a não só mais acessível como também prova que os conteúdos de ficção portugueses têm cada vez mais capacidade e qualidade para figurar de qualquer catálogo.

Como dissocias os públicos que têm assistido a Terra Nova?

Escrever é muitas vezes uma tarefa solitária e geralmente criticada por pessoas que, estando noutras capacidades dentro da cadeia de produção, julgam fazer tão bem ou melhor do que quem optou por fazê-lo com todo o seu tempo, entrega e conhecimentos, por isso a resposta encorajadora e elogiosa tanto dos públicos mais habituados a narrativas mais tradicionais, como da crítica mais exigente, que a compara a séries estrangeiras de qualidade, está a ser surpreendente. É muito positivo receber comentários de tanta gente que diz ter ficado agarrada à trama quer tenha assistido tradicionalmente semana após semana na RTP, quer após uma sessão de “binge” de episódios na HBO.

Qual é a perspetiva que tens da inclusão de filmes e séries nacionais nos catálogos das plataformas de streaming atualmente?

Numa lógica de crescimento do meio, acho importantíssimo demonstrar que a ficção nacional tem méritos próprios e consegue encontrar o seu próprio público nestas plataformas. O único problema que encontro para já é uma certa limitação temática que urge ultrapassar. Se podemos fazer séries dramáticas ou de comédia com interesse e público, julgo que o próximo passo será entrar em mais géneros e formatos. Aqui ao lado, em Espanha, apostaram nisso e estão a conseguir exportar cada vez mais os seus formatos e, consequentemente, a ter cada vez mais e maior aposta na produção local.

Não me admirará que, com o tempo, seja mais benéfico para o panorama audiovisual de um país ter várias produções nas plataformas de streaming mundiais do que ganhar um Globo de Ouro ou um Óscar.

 

O que achas das séries mais recentes produzidas em Portugal, quer da RTP, quer da OPTO? A sua qualidade está ao nível do que se tem feito no estrangeiro ou ainda há um longo caminho a percorrer?

Penso que os dados começam a ser lançados e as mentes de quem decide começam a estar atentas a formatos e géneros diferentes. A RTP tem sido o canal que mais aposta em ficção nacional diferenciada e não vejo que canais como a SIC ou a TVI pudessem apostar em formatos como Terra Nova, Até Que a Vida Nos Separe, Pôr do Sol ou O Mundo Não Acaba Assim, só para nomear alguns.

A criação da OPTO por parte da SIC parece querer começar a mudar esse panorama, apostando em séries como Esperança.

É imperativa uma aposta das produtoras e canais portugueses em formatos diferenciados, apoiados na criatividade e visão dos autores. A aludir algum défice ao que se faz cá, apontaria isso mesmo, já que no estrangeiro cada vez mais os “showrunners” são os criadores e argumentistas, enquanto continuamos muito apostados numa lógica de produção em que estes são apenas uma peça acessória na criação dos formatos.

Podes adiantar-nos alguma coisa sobre futuros projetos?

Neste momento estou a desenvolver alguns projetos pessoais quer para televisão, quer para cinema e BD, mas nada que esteja na fase de ser anunciado para já.

Uma das maiores dificuldades dos argumentistas em Portugal é precisamente voltar ao zero e a ter que investir o seu tempo e trabalho a produzir formatos que nunca sabe se serão apoiados. Precisamos de um mercado melhor, mais interessado no contributo dos autores e que não viva tanto de formatos estrangeiros ou decididos por um comité de quem pensa mais em negócios do que na qualidade dos projetos.


Rúben Gomes

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