Muitos de vocês possivelmente não repararam sequer no título ou passaram ao lado desta produção britânica. Como habitualmente, se não entra no mercado americano dificilmente chegará a um grande público mas a verdade é que as produções britânicas são sem sombra de dúvida o adversário mais direto dos americanos no que toca à variedade e qualidade de produções televisivas.

Colocando as rivalidades de lado, apresento Utopia, o mais recente projeto de Dennis Kelly para o Channel4.

Uma história de banda desenhada serve de mote para esta produção. Mas desengane-se quem pensa que é uma das típicas comics. Utopia é uma banda desenhada invulgar, cheia de mensagens escondidas e que oculta um verdadeiro horror. O problema surge quando os leitores começam a perceber a verdadeira realidade de Utopia e misteriosamente enlouquecem. Devido ao seu complexo conteúdo, os leitores deste graphic novel formaram grupos online e é num desses grupos que se começa a falar da existência de um manuscrito contendo a segunda parte de Utopia, ainda não publicada. A ação da história inicia quando uns membros desse grupo decidem reunir-se para analisar o manuscrito. Becky (Alexandra Roach), Ian (Nathan Stewart-Jarrett), Wilson Wilson (Adeel Akhtar) e Grant (Oliver Woollford) começam a ser perseguidos por uma organização mundial secreta – The Network – que quer o manuscrito para completar a sua missão. Essa perseguição é feita através de Arby (Neil Maskell), um misterioso homem que não tem qualquer rasto de emoção e que não olha a meios apara atingir os fins. Por outro lado, o grupo vai poder contar com a ajuda de Jessica Hyde (Fiona O’Shaughnessy), também ela bastante misteriosa.

A história é muito intrigante e complexa e contém vários detalhes que nos vão sendo apresentados ao longo dos episódios, de forma inteligente. A existência de apenas seis episódios nesta primeira temporada torna mais leve e fácil de digerir toda a complexidade envolvente. As personagens são igualmente bem construídas, com os seus segredos e objetivos pessoais e os atores que as interpretam fazem-no bastante bem e de forma coerente, apesar de não haver performances geniais. Contudo, tenho que realçar o trabalho de Neil Maskell como Arby pois consegue com que o público tenha um misto de sentimentos pela sua personagem: por um lado, arrepios perante a insensibilidade do assassino e, por outro, sentimos pena ao perceber toda a sua história.

Mas o ponto forte de Utopia é a violência nela patente que apesar de brutesca tem um certo sentido artístico. E nisto as produções britânicas ganham aos seus rivais. Não têm qualquer inibição de mostrar tanto sexo ou violência e fazem-no sem qualquer tabu. Mas atenção, não são em quantidades desmedidas. Utopia apresenta essas cenas apenas quando tem que ser (maioritariamente quando aparece Arby) e não é somente uma série sobre violência. Simplesmente mostra a cena no seu todo: se alguém vai dar um tiro noutra pessoa não se ouve apenas o som da arma mas sim assiste-se ao momento no seu todo. Certas situações podem mesmo ferir a suscetibilidade dos mais sensíveis.

Capaz de nos pôr a pensar em certos eventos do passado, através das suas teorias de conspiração muitas delas resultantes da leitura de Utopia, esta produção apresenta também alguns dos problemas do futuro e expõe então uma solução através da organização The Network, apesar que ainda demasiado utópica. Contudo, deixa uma questão pertinente: será assim tão utópica?

Sem dúvida a não perder!

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