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Inside Gaming: A História por trás dos cartuchos de E.T. enterrados

Até há poucos dias, circulava uma das histórias mais intrigantes do mundo dos videojogos e com a qual todos brincavam mas sempre  com um certo ceticismo. Falo pois da mais recente descoberta de milhares de cartuchos para Atari de E.T, Centipede e Phoenix. Mas vamos primeiro entender a história de como estes videojogos foram parar no meio do deserto do Novo México, em Alamogordo.

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Há cerca de 30 anos, mais precisamente em 1982, a Atari não passava pelos seus melhores dias. Tentaram adaptar o mítico Pac-man das máquinas de arcade para a sua Atari 2600, pois este foi um sucesso e deu inclusive início ao mechandising da indústria dos videojogos. Acreditando que iriam alcançar um sucesso semelhante na consola, produziram-se cerca de 12 milhões de cópias do jogo, quando existiam apenas 10 milhões de pessoas com a consola. Inicialmente a reação do público foi positiva mas rapidamente entenderam que não iria correr como esperado. Dos sete milhões vendidos, mais de metade foi devolvido pois a conversão das arcadas para a consola fora mal efetuada e não foram consideradas as limitações técnicas da mesma.

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Tendo ainda o fiasco de Pac-man bem presente na mente e do prejuízo que isso provocou, decidiram adquirir os direitos de um dos maiores sucessos desse verão de 82 e de toda a história do cinema: E.T. – O Extra Terrestre, de Steven Spielberg. A intenção seria aproveitar toda a euforia que o filme causou e adaptá-lo para um videojogo. Para a realização do mesmo, foram investidos 25 milhões de dólares, muito por culpa da insistência de Steve Ross, um dos homens poderosos da Atari. Apesar da soma astronómica, nunca antes alcançada pela empresa, a equipa teve pouco tempo para realizar um título de qualidade, pois pretendiam que este chegasse às lojas no Natal desse mesmo ano. Além das (apenas) 8 semanas para o seu desenvolvimento, ainda existiram problemas de acesso a hardware e material de qualidade. Tudo isto teve um resultado que estava condenado ao fracasso: um jogo de fraca qualidade. No entanto, a equipa esforçou-se para oferecer aos jogadores uma experiência de aventura semelhante à do filme. No jogo, o jogador controlava o alien que procurava várias peças de um telefone intergaláctico, o que lhe permitiria ligar para casa. A jogabilidade foi considerada monótona, pois o jogador tinha de efetuar uma inspeção minuciosa a diversos buracos, que muitas das vezes estavam repletos de bugs que acabavam por encurralar o personagem. Outra das queixas recorrentes era a fraca qualidade gráfica do título. Mesmo com todos os aspetos negativos, decidiram produzir 5 milhões de cópias. Claro que as vendas foram um desastre e dos poucos cartuchos vendidos, muitos foram devolvidos.

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A Atari acabou por ter milhões de cópias amontoadas nos armazéns (entre cartuchos de Pac-man, E.T. e outros jogos que não tiveram sucesso) e a única solução encontrada foi enterra-los no deserto do Novo México. Consta que 8 camiões carregados de videojogos deslocaram-se até Alamogordo no dia 26 de setembro de 1983 para os despejar num aterro e tapá-los com cimento, garantindo que desta forma desapareciam para sempre. Este (até agora) mito, ditou o fim da Atari que com prejuízos de 536 milhões de dólares, acabou por ser vendida em 1984.

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Agora que já sabem o que aconteceu, vamos continuar. No início do mês, veio a público que o Departamento de Proteção Ambiental do Novo México tinha autorizado uma proposta de escavação ao aterro sanitário onde se julgava estarem as tais cópias. Ao longo dos anos já várias tentativas para o fazer tinham sido efetuadas, mas devido à presença de substâncias tóxicas no solo do local, ainda não tinha sido possível. Desta vez, a iniciativa é da Xbox Entertainment Studios que pretende realizar um documentário sobre este mesmo assunto. No sábado (dia 26 de abril), após horas de escavação foram finalmente encontrados os cartuchos, por baixo de muito lixo. O número, algures entre os milhares ou mesmo milhões, ainda é incerto, mas estão lá. Resta agora saber que fim irão ter estes (maus) jogos.

Historia dos videojogos_Ivan Barroso

Todo este artigo não poderia ter sido escrito sem a consulta exaustiva de um livro que qualquer gamer que se interesse pelo passado desta indústria deveria possuir. Não estou a fazer publicidade a ninguém, mas a verdade é que o livro «A História dos Videojogos – A génese da Indústria» de Ivan Barroso é uma fonte de informação enorme sobre a história do que se tem passado desde 1972 até ao início dos anos 90. Para quem não sabe, Ivan Barroso é uma das figuras mais conceituadas na indústria dos videojogos em Portugal, sendo historiador desta mesma área, corresponsável na ETIC de Lisboa no curso de Videojogos e Aplicações Multimédia, Cronista no P3 e editor da Revista Digital de Videojogos PUSHSTART, onde tenho o prazer de colaborar igualmente. Caso fiquem interessados, podem espreitar e quem sabe adquirir o livro aqui.

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