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Como eu ouço… Sixpence None The Richer

Engolidos pela grandeza do sucesso

A banda composta por Leigh Nash e Matt Slocum poderá eventualmente ter sido um dos casos mais flagrantes de alcance e perda de sucesso durante os anos 90. Quem não se lembra de ser invadido pelo refrão intemporal do tema “Kiss me” ou pela recriação de “There she goes” dos The La’s?

Em 2004 o projecto acabou por se desmembrar, dando lugar a que Nash e Slocum procurassem explorar a sua individualidade criativa em projectos distintos. No primeiro longa-duração desde o seu afastamento acabam por figurar quatro dos cinco temas já apresentados no EP My Dear Machine, lançado em 2008. Lost In Transition foi um álbum de parto difícil, sendo que já fora chamado “Strange Conversations” e esteve dois anos na prateleira à espera para ser lançado.

Slocum sempre escreveu letras com elevada precisão poética, capaz de explorar um anseio espiritual profundo. A voz sincera de Nash contém em expressão o que lhe falta em extensão, fazendo com que cada nota seja sempre um tiro certeiro num qualquer cenário. O tema de abertura, My dear Machine, parece revelar a consciência que ambos têm do que significa um difícil regresso a uma cena que parece já os ter esquecido. Para dois músicos que se reencontram após uma pausa de 10 anos, torna-se impossível não ceder à tentação de interpretar escritos francamente auto-biográficos. “My dear machine’s been at it so long / Now it’s time for another drive”.

Na verdade, o fracasso é um tema proeminente de Lost in Transition, o que faz com que “Failure” seja precisamente um dos temas mais arrebatadores deste regresso. “Time is not my friend anymore,”, suspira Nash antes de nos proporcionar uma declamação épica da frase “I’ve failed to make it,”, repetida consequentemente de forma enternecedora até ao final da viagem. Nash assina a autoria de “Should not be this hard”, um retracto absorvente de como se revela a luta por um relacionamento falhado. As palavras são mascaradas por uma instrumentalização brilhante que revela a maturidade dos músicos e a cada vez mais visível consistência da sua identidade artística.

Nash assina mais canções neste álbum que em qualquer outro e “Sooner than later” é provavelmente um dos pontos altos do disco, uma reflexão sentimental em homenagem à memória do seu pai. Há uma vulnerabilidade humilde que brilha em Lost in Transition de forma mais compreensível do que nos seus anteriores registos. No single “Radio”, podemos constatar uma vocalização clara que reflecte a nostalgia de quem consegue elevar uma canção de temática depressiva a uma memória de tonalidades reconfortantes. Conseguimos distinguir a dor, mesmo não sendo caprichosa ou indulgente. Da mesma forma, a confiança tranquila do seu desempenho em “Give it back” proporciona um casamento delicioso com a instrumentalização do tema.


Lost in transition é um álbum que resume tudo aquilo que nos pode cativar nos Sixpence None the Richer, embora por vezes nos deixe a sensação de que não ousam tornar-se mais do que perenemente simpáticos. Se por um lado conseguimos encontrar aqui tudo aquilo de que sentíamos saudades quando ouvíamos falar no projecto, por outro fica-nos um sentimento de que a consistência afogou a diversidade. Será um disco que matará as saudades de todos os que conheceram um pouco mais da obra da banda cristã e é certamente um inequívoco atestado de composição de alto nível passado a Nash e Slocum.

Para quem procura uma escrita mais madura do que “Kiss me”, será um trabalho que pode proporcionar uma recompensa significativa, mas para quem se deixou levar ao som de peças grandiosas como “The lines of my earth”, “Melody of you” ou “Dizzy”, fica a sensação de timidez ou medo causado pelos anos de interregno a que estiveram submetidos.

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Resta-nos agradecer o facto de Nash e Slocum terem uma amizade musical que sobreviveu a todos estes anos de instabilidade e ingratidão por parte de uma industria e um público que não encontra lugar para um repertório incrível de quem ficou resumido a dois hits mundiais. Eles estão a trabalhar com os artistas e produtores que querem trabalhar (Jim Scott tem um trabalho assinalável aqui), e escrevem as músicas que querem escrever. Pode não ser perfeito, mas talvez seja o primeiro álbum em 20 anos que os Sixpence None the Richer fazem nos seus próprios termos. Tal facto é claramente razão para celebrar.

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