Renascer mais uma vez

À semelhança de outras estrelas internacionais, Christina Aguilera viu o conteúdo do seu 7º álbum de estúdio vazar na Internet, fazendo com que os fãs mais acérrimos da cantora pudessem escutar Lotus poucos dias antes do seu lançamento oficial para os escaparates a 12 de Novembro.

Depois de uma subida auspiciosa que distinguiu Aguilera das suas demais concorrentes pela voz portentosa e atitude descomplexada, o anterior Bionic significou uma transição menos feliz na carreira da artista, tendo ficado aquém das expectativas de fãs e críticos. Depois de resultados comerciais mornos e três temporadas como mentora do programa The Voice, Aguilera reinventou-se e decidiu apresentar um álbum de redenção no qual mostra como se sobrevive na área da Pop. É certo que a sua capacidade vocal transcende géneros, como se pode verificar pelo mais recente dueto com o veterano Tony Bennet, mas Aguilera parece decidida a recuperar o seu lugar nos tops através de um álbum que mais parece uma estreia.

Acompanhando a tendência electrónica e os apontamentos dançáveis que povoam os mais recentes hits da área, Christina Aguilera tem em Army of me e em Let there be love prováveis singles de sucesso. O primeiro é descrito pela própria como uma versão modernizada de Fighter e o segundo denota uma forte influência de êxitos recentes, à laia de Calvin Harris. São fáceis de digerir e têm a transversalidade de poderem ser ouvidos numa estação de rádio ou numa pista de dança. No alinhamento constam dois duetos com os seus parceiros do programa The Voice, Cee-lo Green e Blake Shelton. Make the world move é um tema que reúne a identificação musical entre os dois artistas, recorrendo a uma mistura de sonoridades motown com os ritmos arrojados da actualidade. É neste tema que podemos encontrar uma extensão provável do bem sucedido Back to Basics, fazendo-nos lembrar a displicência de temas como 1 Thing de Amerie. Na segunda colaboração, percebemos a influência que o cantor de country teve no universo musical da artista, sendo que o tema Just a fool é claramente um dos momentos altos de Lotus. Uma balada clássica que regista um casamento perfeito entre dois universos distintos.

Your body, o primeiro avanço do disco, é desenhado pela mão do afamado fabricante de êxitos Max Martin(Britney Spears, Kelly Clarckson, Katy Perry…), revelando uma Aguilera provocadora, independente e destrutiva. Percebe-se a escolha do tema enquanto resumo da personalidade da artista, sendo uma espécie de contra-ataque aos fantasmas do peso e do divórcio. Na realidade, a independência da mulher e a consagração da sua sexualidade sempre foram um dos maiores cartões de visita de Aguilera, personalizando aqui um tema que facilmente seria tido em menor conta se interpretado por uma artista sem o seu descaramento e franqueza desarmante.

No entanto, é na vulnerabilidade das baladas que Aguilera continua a provar ser um peso-pesado das lides vocais, seja no registo mais R&B de Sing for me, no qual a cantora recorre à habitual subida de tom no refrão final, ou no minimalista e vulnerável Blank Page. É precisamente neste último, fruto de mais uma colaboração com a australiana Sia que assinara temas como Bound to you, que Aguilera satisfaz um público que a tem em conta como mais do que uma princesa da pop. Assemelhando-se a um primo do galardoado Beautiful, Blank Page dispensa grandes produções e cria espaço a uma interpretação magistral na qual podemos contemplar todos os recursos da que por muitos é considerada a voz da sua geração.

Cease fire e Circles transportam-nos para uma atmosfera atípica para o universo da cantora, sendo provavelmente os temas em que Aguilera mais arrisca em termos sonoros, sendo que no último, para além de ser da sua co-autoria, deixa uma sugestão aos menos apreciadores do seu trabalho “spin around in circles on my middle, middle finger”. Claramente, Aguilera atravessa uma guerra interior na qual ora assume a posição de concilio com o universo em redor, ora se mune de todas as armas que tem e ataca como se não houvesse amanhã. ” Best of me é o meio termo deste duelo, permitindo que se despeça com um assertivo e vulnerável I will not let you bring me down.

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Lotus não fugirá à regra de contemplar uma versão Deluxe, composta por mais três temas e um remix do single Your body. Este disco constitui um portentoso pedido de desculpas por parte da cantora aos tops e marca assim o início de uma nova era que se afigura de maior comunicação com as massas. 

“I don’t really push myself to have those formulaic commercial successes. It’s dishonest and it starts lacking creativity. I embraced being a pop artist, but I like doing it on my own terms, at my own pace.” Talvez a maturidade tenha permitido a Aguilera uma busca menos incessante por arrojo e consequentemente uma maior aproximação a tudo aquilo que a colocou na linha de frente como candidata a um título hierarquicamente superior ao de princesa da pop.

Who owns the throne?

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