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Bruno Ferreira: «Tenho tido a sorte de ao longo destes 15 anos continuar a ter trabalho» – 7 Dias/ 7 Entrevistas

O entrevistado desta noite pode até não ser reconhecido por muitos, mas certamente que a sua voz não é indiferente a ninguém. Depois de anos atrás dos personagens do Contra Informação, Bruno Ferreira centra-se agora no 5 Para a Meia-Noite, onde está desde o início, em 2009.

Para erros não existirem e para saber exatamente de quem falamos, fique agora a par de tudo em mais uma entrevista exclusiva com a assinatura 5º Canal.

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I

 Quem é o Bruno Ferreira?

É um profissional que tem a sorte de adorar o trabalho que faz e de se divertir a trabalhar.

Em que altura percebeu que tinha capacidade vocal para imitar outras vozes?

Contam os meus pais que desde sempre. Foi a imitar colegas e professores que me apercebi que conseguia chegar muito perto de alguns registos, e que isso era reconhecido pelos próprios.

O humor sempre esteve presente na sua vida ou foi surgindo com o passar dos anos?

Acho que sempre lá esteve. Sobretudo depois de perceber que conseguia fazer rir as pessoas, o que aconteceu cedo. Neste caso a família, os meus colegas de escola e os professores. Esses são o nosso primeiro público. O que aconteceu a partir de determinada altura é que começou a ser-me proposto fazer outras pessoas rir. Pessoas que não conhecia. E ainda para mais pagavam-me por isso. Foi o momento em que comecei a tornar-me profissional.

II

 Luís Franco Bastos é um dos mais falados do momento, numa altura em que vão surgindo mais jovens talentos. É uma arte complicada esta de imitar?

O Luís Franco Bastos tem dado provas de ser um grande profissional e sou um grande fã de muito do seu trabalho. Veio trazer uma lufada de ar fresco, e um interesse maior pela imitação de vozes, e isso é importante porque nos valoriza a todos. Sobre a tua pergunta, acho isto de imitar é um pouco como outros trabalhos que se vão tornando mais específicos. Claro que quem faz este tipo de humor começa a desenvolver o seu método, a conhecer formas de trabalho, e sobretudo descobre que é preciso dedicar muitas horas de labuta para se aperfeiçoar. Mas, como digo, essa é uma exigência que todos os profissionais devem ter no desempenho da sua arte. Sobre se é complicado imitar vozes, cada caso é, e será, sempre um caso. Estamos a falar, também, de técnicas. Conhecer o nosso aparelho vocal, tentar dominá-lo o mais que pudermos, e depois memorizar o que fizemos. Os órgãos vocais são músculos. E como um atleta, por exemplo, é preciso exercitar esses músculos, ir ao ginásio. Ou seja, trabalhar, trabalhar, trabalhar. Claro que há casos de imitações de sucesso, que algumas vezes até surgem de forma quase repentina. Mas há outras que não me saem nem hoje, nem nunca.

Tem por hábito acompanhar o trabalho dos seus colegas?

Sim, claro, acho que também faz parte do nosso trabalho, nós não somos ilhas, é bom ver o que está a ser feito pelos colegas e, se for bom, como o caso que estamos a falar, tanto melhor, porque nos divertimos. E esse é o objectivo disto, divertir as pessoas. E divertimos-nos também. Há muitos anos, no Levanta-te e Ri, o Marco Horácio disse-me, antes de eu entrar em palco: “Vai lá para dentro e diverte-te!”. Muitas vezes lembro-me dessas palavras antes de começar uma actuação. Se nos divertirmos é meio caminho andado para que o nosso público se divirta. Sobre os colegas desta arte, destaco o João Canto e Castro, com quem tive o prazer de trabalhar durante 14 anos. O João é um génio, um artista maior. Merece continuar a ter trabalho e tenho muita pena que ande agora mais desaparecido. Depois surge o inevitável Fernando Pereira, com quem já tive o privilégio de trabalhar algumas vezes. Ele especializou-se na música e para mim é o melhor imitador cantor de todos os tempos.

Um destes novos talentos é o Pedro Soares… Acha que ele vai conseguir vingar no humor?

Não tenho dúvidas nenhumas. O Pedrinho – e é assim que o trato porque foi no 5 Para a Meia Noite que o conheci, e que ele começou, no momento Speed Battle – é outro caso de elevado talento. É óptimo ele ser tão novo e já estar a aprender como funciona este mundo, a televisão, os palcos, porque esses conhecimentos vão trazer-lhe enormes vantagens para o futuro. Não tenho dúvidas de que se ele quiser, porque sei que é trabalhador e tem talento, terá o seu lugar assegurado.

O Contra Informação foi o programa que lhe deu mais protagonismo, o que aprendeu com a experiência?

O Contra foi a minha casa durante mais de 14 anos. Aprendi muito com o programa. Foi uma escola de tantas coisas. De trabalho, empenho, espírito de equipa, amizades. Passei pela produção, pelo estúdio, pelos eventos, acho que experimentei tudo o que podia com o Contra. Para toda a equipa o programa estava sempre à frente de tudo. Se um ministro dizia um disparate à noite, no outro dia ao raiar do sol estávamos no estúdio para gravar a piada. Outras vezes era preciso lá ir a correr à noite, ou ao fim de semana. O Contra foi o meu segundo contacto com um estúdio de som. Trabalhei uns anos na Rádio Pax, em Beja, antes de vir para Lisboa em 1993. E em 97 ganhei um casting para entrar na equipa de vozes do programa. Foi uma sensação que nunca mais vou esquecer. Tinha 23 anos e percebi imediatamente que era aquela a vida que queria para mim. Em 14 anos, com um programa diário, aprendes de tudo, até porque com aquela idade tens muita fome de conhecimento. E tinha a sorte de ter uma equipa fantástica sempre disponível para me ensinar. Foram tempos fantásticos.

Na altura era o diretor de vozes do programa, de quem surgiu esse convite?

O convite veio quer da direcção da produtora, quer do anterior director de Vozes do programa, o Rui Pimpão. Creio que foi em 2002 que assumi essa responsabilidade. E foi muito bom poder ajudar, ainda de forma mais ativa e profunda na criação de um programa que foi e é um marco na televisão portuguesa. Trabalhar no Contra Informação foi, a todos os níveis, um privilégio.

Qual foi até hoje a voz mais difícil imitar? E qual a mais bem conseguida?

Vozes difíceis são muitas. Ando à guerra com a voz do Futre, acho que já consigo algumas aproximações, mas tenho de por isto cá para fora para perceber se vale a pena insistir. Acho que a melhor imitação é capaz de ser a do Paulo Portas, ou a do Xanana Gusmão. E foram daquelas que por sorte surgiram em cinco minutos. Ao contrário de tantas que me levam tempos e tempos, como o actual ministro das finanças, por exemplo.

Há alguma voz que, por algum motivo, gostaria e não consegue imitar?

Sem dúvida que sim, há muitas, mas a verdade é que este é um trabalho em que nunca nos devemos dar definitivamente por vencidos. Assim de repente lembro-me do Alberto João Jardim. E neste caso o problema não é o timbre, a voz em si, que consigo, mas a pronúncia madeirense. Tenho de ir à Madeira em “trabalho” de pesquisa.

Têm surgido alguns convites para televisão?

Tenho tido a sorte de ao longo destes 15 anos continuar a ter trabalho. Para além do Contra estive no 1,2,3, com a Teresa Guilherme, tive o meu programa de autor na SIC Radical, o Edição Extra, outra grande escola e recordações fantásticas, e desde o início do programa, em 2009, que estou com o Luís Filipe Borges no 5 Para a Meia Noite. Também passei pelos microfones da RR com o programa diário Memória de Elefante. Isto para além de participações em inúmeros programas com sketches humorísticos. Olhando para trás, assim de repente, só posso concluir que sou um grande sortudo.

Tendo em conta a grelha das generalistas, quais os programas que acompanha com alguma regularidade? Porquê?

A informação, sempre. Porque nesta profissão é preciso estarmos bem informados. As piadas têm o seu tempo, e uma grande piada hoje pode já soar a muito requentada amanhã. Por isso tento ver sempre os telejornais. Depois sigo o 5 Para a meia Noite, o Estado de Graça, e mais algumas coisas de forma esporádica. Uso muito o Youtube para poder ver o que perdi na televisão.

III

Portugal está a atravessar um dos momentos mais duros dos últimos anos. Que influência tem o humor junto dos portugueses?

Esta pergunta desdobra-se em várias questões importantes. É evidente que o humor numa situação de dificuldade generalizada ajuda a suportar de forma diferente o dia-a-dia. As pessoas esquecem-se durante algum tempo das coisas más e para além do mais o riso tem propriedades altamente benéficas para a saúde. Mas depois, e por causa dessa mesma situação de dificuldade, os humoristas têm maiores dificuldades em receber o valor do seu trabalho. Por um lado porque a pretexto da crise os preços baixam, e depois porque são pagos cada vez mais tarde.

Acha que a televisão em Portugal devia apostar mais nesta arte ou o investimento feito é o suficiente, tendo em conta o mercado atual?

Acho que a televisão conhece muito bem o poder do humor, e por isso mesmo dá-lhe espaço. Prova disso mesmo é a aposta da RTP no 5 Para a Meia Noite no Canal 1, ou no Estado de Graça, e a SIC, em prime-time, com o Gosto Disto, já para não falar de tantos projectos que têm ido para o ar nos últimos tempos. Mas como sempre o “mercado actual” acaba por condicionar os investimentos dos promotores. Umas vezes de forma sincera, outras tantas aproveitando a boleia da crise para mais uma vez pagar pior.

Muitos dos jovens humoristas que surgem não têm espaço para mostrar o seu talento. Um conselho para todos eles…

Há inúmeros jovens a querer mostrar o seu trabalho, sobretudo em stand up-comedy. Quando eu comecei a trabalhar o youtube ainda não era conhecido, não havia Facebook nem iPhones onde partilhar a qualquer hora ou lugar o nosso trabalho, e sobretudo o mercado era muito mais fechado. Acho que essa é uma ferramenta obrigatória para quem quer começar a mostrar o seu talento. A par disso existem hoje várias produtoras de eventos e agências de actores e humoristas onde os mais novos devem ir bater à porta e dar-se a conhecer. Mas sobretudo nunca deixem de trabalhar, mesmo que a porta tarde em abrir-se.

Projetos para o futuro?

Acima de tudo continuar a ter a sorte de poder trabalhar. Acabo por fazer muitas coisas para além das imitações, e do humor. É um grande objectivo poder continuar no 5, mas também a gravar publicidade, narrações de programas, a participar em dobragens de animação (estreia agora o Madagáscar 3, onde dou voz ao Pinguim Capitão), a fazer a voz do AXN Black, a escrever as minhas crónicas de humor no Diário do Alentejo (gostaria de lançar um livro no próximo ano), a fazer eventos para empresas, e por aí fora.

Uma mensagem para os leitores do Quinto Canal!

Os leitores do Quinto Canal são, também eles, o nosso público. A mensagem é essa mesma. Que não deixem de ver o trabalho dos humoristas portugueses, dos mais conhecidos aos mais novos, que dêem sempre o benefício da dúvida, porque ser público também é isso: ser exigente mas estar informado e ter poder de crítica. Com bom público tanto melhores serão os atores, argumentistas e demais equipas que trabalham para, neste caso, fazer rir. E já agora, para todos os leitores, boas gargalhadas!

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 Muito Obrigado e boa sorte para o futuro!

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