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A Caminho dos «Oscars» 2015: A realidade de «Boyhood»

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A pouco mais de 10 dias da grande cerimónia dos Oscars, fica aqui o filme que está na frente na luta pelas principais categorias da noite. Um épico familiar que levou 12 anos a ser feito e que tem recebido desde o seu lançamento críticas muito positivas tanto por parte de críticos como do público em geral.  Com uma performance cativante de Patricia Arquette que tem praticamente garantido o Oscar de Melhor Actriz Secundária, Boyhood: Momentos de Uma Vida promete causar furor durante a cerimónia. Para já, fiquem com a minha crítica ao filme:

Quando alguém ouve falar de Boyhood e, principalmente, do enredo, as reações inicias podem ser mistas… Para já o conceito aparenta ser demasiado simples e pouco interessante e depois sendo este um filme experimental, é muito complicado conseguir agradar a todos. No entanto, descrever a vida de um rapaz dos 5 aos 18 anos, uma tarefa que aparenta ter alguma dificuldade no mundo do cinema, levou Linklater ao pódio com um feito incrível. A forma imatura de pensar, a forma como os mais jovens vêm o mundo e sobretudo a instabilidade psicológica tornam-se factores de extrema relevância a ter em conta e que acabam por tornar a vida mais difícil a realizadores e a argumentistas… Contudo e felizmente, Linklater conseguiu ser o autor de um feito quase inacreditável ao criar uma visão natural da vida capaz de levar os espetadores numa viagem ao passado e às recordações. Por toda esta naturalidade da história, torna-se difícil opinar sobre a mesma sem revelar alguns promenores, pelo que peço desculpa desde já por isso.

Boyhood segue a vida de Mason em todos os aspectos, como o seu relacionamento com os pais divorciados, a forma como a irmã lida com tudo e como ele reage às súbitas mudanças que ocorrem na sua vida. Depois de se tornar mãe muito cedo, a mãe de Mason (Patricia Arquette) lida com várias dificuldades económicas e com um pai (Ethan Hawke) que não está presente na vida dos seus filhos. Depois de se mudarem para outra cidade, torna-se interessante ver como toda a família lida com a situação … Desde fazer novos amigos até retomar os estudos universitários, todos tentam-se adaptar a uma nova realidade da melhor forma possível… A forma como o pai de Mason evoluí ao longo do filme é também incrivelmente natural. Desde os tempos em que não via as responsabilidades e em que não conseguia adaptar-se a uma vida com crianças até à altura em que decide mudar o seu comportamento, a fim de se tornar num melhor pai, existe um tom claramente realista ao longo de toda a trama. E foi provavelmente a partir daqui, a partir do momento em que as coisas atingem um pequeno equilíbrio que, por breves momentos, vi o meu passado a passar pelos meus olhos, com as pequenas semelhanças e os pequenos detalhes que fazem deste filme um marco na história do cinema.

Boyhood segue também a vida amorosa dos pais de Mason depois do divórcio, o que acabou por ser desafiante já que tanto Mason como a irmã têem de passar por um problema de violência doméstica entre a mãe e um dos seus namorados possessivos. Estes momentos revelam-se devastadores ao ver duas pessoas tão novas a testemunharem agressões sobre a sua mãe que se apresenta como uma pessoa frágil ao ser atacada tanto fisicamente como verbalmente… Momentos de angústia que servem como um alerta para a necessidade de agir rapidamente em casos destes. Mas o filme também se centra nos bons momentos, como reuniões familiares, jantares e festas que revelam a união e força entre todos. Enquanto os anos passam, vemos Mason descobrir coisas curiosas e questionar aquilo que não entende, o que é natural para um rapaz, mas que, em Boyhood é tratado com alguns cuidados especiais. Boyhood é o filme definitivo sobre a descoberta de nós próprios, porque através de uma jornada comovente na vida de um rapaz, permite ao espetadore reflectir sobre a forma como o divórcio, a violência doméstica e a falta de um pai podem influenciar a vida e as escolhas de um jovem.

Gostei imenso da interpretação de Patricia Arquette e da forma como esta lida com as emoções e com os momentos dificeís. Como uma mãe divorciada de dois filhos, a sua luta para pagar as despesas e garantir a segurança e o crescimento saudável destes, torna-se impressionante aos olhos dos espetadores. Sem a ajuda de um pai presente, ela decide mudar-se diversas vezes como forma de proteger os filhos e para lutar por um emprego e vida melhores. Mas o que se torna realmente surpreendente e desafiante é ver como as personagens evoluem e o quão difícil é encontrar um equilíbrio no meio de tudo, captando as dificuldades do nosso dia-a-dia com os dias bons e maus. Ethan Hawke, o pai, tem também um desempenho interessante que se torna mais visível pela evolução da personagem, ao passar de uma pessoa sem preocupações para alguém que quer dar tudo pelos seus filhos. Acaba por dar um tom menos sério à história e torna-se na personagem mais difícil de jugar, porque goste-se da atitude ou não, a verdade é que provou ser um homem capaz de lidar com as suas responsabilidades. Mas num filme que foca a sua atenção no crescimento de dois jovens, não posso deixar de referir a forma comovente como estas pesonagens lutam para compreender melhor o mundo num crescimento constante que se torna verdadeiramente interessante de se testemunhar.

Para lá das boas interpretações, Boyhood também tem várias referências interessantes à sociedade que viveu durante os anos 90 e durante os anos 2000 como o lançamento dos livros de Harry Potter e alguns desenhos animados da altura. Ao acrescentar uma banda-sonora que reflecte a passagem do tempo por ter singles que foram êxitos nos anos de lançamento, Boyhood torna-se então numa conquista fantástica da história do cinema, que merece e deve ser visto por todos. Filmes assim são raros e é incrível ver esta retrospectiva sobre a forma como a sociedade mudou em tão pouco tempo. Claro que não deixa de ser a simples história de um rapaz a crescer mas no seu todo, engloba muitas mais coisas… A forma como Linklater representa a dinâmica familiar é quase soberba e graças a isso, existe a hipótese de fazer uma pequena reflexão sobre a nossa própria vida.

5/5

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