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Confessionário: Madonna e o pós-feminismo.

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Era suposto falar de Felix, o vilão gay da novela da Globo “Amor à Vida” na minha primeira crónica, mas quando a rainha decide lançar algo, basicamente a tua vida deixa de ter sentido e vez/ouves o produto criativo da mesma até à exaustão.

Este é o último trailer do intitulado “Secret Project”, a mais recente colaboração entre Madonna e o fotografo Steven Klein, que já tinham colaborado em 2003 na exposição “X-STaTIC PRO=CeSS”, que servia de comentário à sociedade americana. Desta vez não ataca apenas a sociedade americana, não no sentido em que é o seu foco principal, na realidade não existe um foco principal, durante 17 minutos – o projecto é uma curta-metragem – Madonna fala da perca de liberdade de expressão, ataque aos direitos LGBT e até feminismo.

E é nesse ponto que Madonna demonstra mais fúria, não por ser mulher – o que obviamente contribui – mas sim porque de acordo com ela, é o facto de ninguém a levar a sério. “Eu quero começar uma revolução. Mas ninguém me leva a sério, será por ser loira? Por ser mulher?”, esta frase levou-me a pensar no grupo FEMEN, um grupo de mulheres que protestam contra exploração sexual, sexismo e até mesmo tópicos internacionais.

E sejamos honestos, a frase toca num nervo, num taboo que ainda hoje não é discutido – a igualdade entre sexos – sim é um facto de que as mulheres podem votar, ter direito aos mesmos trabalhos que os homens, etc. Mas se lermos as estatísticas concluímos que a igualdade entre sexos ainda está longe de ser obtida, as mulheres podem ter o mesmo cargo que um homem, mas a igualdade de pagamento ainda está longe de ser justa, uma mulher pode manter uma relação com quem quiser e vestir o que quiser, mas é criticada por isso. Ainda se sente que as mulheres são as causadoras do mal em todo o mundo, Eva, Pandora, Helena de Tróia, Cleópatra ou Emma Goldman, são perfeitos exemplos disso.

Mas porque é que falei no grupo FEMEN? Bem, da mesma maneira que podia ter falado nas Pussy Riot ou até mesmo Malala Yousufzai, a blogger paquistanesa que foi atacada pelos talibans, por ter dito que queria e tinha direito a ir à escola. Mas falei nas FEMEN porque é o exemplo que melhor se insere aqui, as Pussy Riot são respeitadas, afinal cantaram uma música sobre Putin e Malala escreveu aquilo que lhe ia na alma, estas duas atitudes receberam aplausos por parte de grande parte do mundo, mas as membros do FEMEN, são olhadas um pouco de lado. Não estou a dizer que não recebam apoio mas no grande geral a maioria acha que os seus métodos de protesto são um pouco “exageros” e “obscenos”.

Mas esses métodos são considerados obscenos porque? Porque protestam de seios expostos? Qual é a obsessão com a sociedade em tornar o seio feminino em algo horrível e pecaminoso?

Eu poderia dizer que a religião tem um factor importante, mas sinceramente só esse tópico dava para ter crónicas e muita porrada entre utilizadores deste site.

E tal como as FEMEN, Madonna recebeu milhares de criticas por lidar com religião, sexo e política. As duas primeiras não provocaram um impacto muito duro na carreira da cantora, na realidade até aumentaram as vendas dos álbuns, mas quando em 2003, Madonna lançou American Life, podemos dizer que o sucesso não tem sido muito grande, pelo menos nos Estados Unidos, onde foi chamada de traidora, hipócrita ou até mesmo ter recebido aquela gloriosa frase “é uma mulher, ela não percebe nada de política”.

E porque é que ela não há-de perceber de política? Porque é que não pode falar de política? Afinal ela mudou de uma certa maneira, a forma como a sociedade olha para as mulheres, pelo menos em alguns aspectos. Álbuns como Erótica e Like a Prayer, são considerados álbuns influentes na comunidade feminina e LGBT, porque falá de uma forma tão aberta de temas como sexo, religião e o lugar de uma mulher na sociedade.

American Life só começou a receber o crédito merecido a partir de 2008, altura em George W. Bush abandonou a casa branca, e incrivelmente continua bastante actual e foi bastante promontório dos 5 anos que se seguiram.

O motivo pelo qual estou a falar tanto neste álbum é simples, “SecretProject” é basicamente, “American Life” – O Filme, o tom da curta-metragem é igual , é negro, frontal e violento. É como se Madonna tivesse pegado no tema daquele álbum e tivesse introduzido esteróides, esteróides esses criados pelas mudanças que ocorreram no mundo nestes últimos 3 anos, guerra, recessão económica mundial, ataque aos direitos das minorias e sim eu considero as mulheres uma minoria.

Mudanças que de acordo com Madonna, faz com que pareça que recuamos décadas e mais uma vez ela toca no nervo na entrevista que deu à revista Vice, que só por aí vemos que ela já nem está preocupada com os principais orgãos de informçaõ.

A Vice é conhecido por ser uma revista que lida com tópicos pesados e 99% das vezes é completamente isenta de opinião política, na realidade penso que seja uma das poucas revistas que apresenta os dois lados do argumento e só o fato de Madonna oferecer o projeto de borla no site BitTorrent, algo me diz que ela não tenha feito todo este projeto pelo dinheiro. Sim pode ser uma boa estratégia de marketing, mas pelo menos tem o lado de vir de um sitio puro e honesto.

Madonna mudou a vida das mulheres. Sem ela não existiriam cantoras como Britney Spears, Christina Aguilera, Lady Gaga ou até Rihanna, tendo criado controvérsia durante toda a sua carreira.

E controvérsia o filme já criou, entre as mensagens que são transmitidas durante os 17 minutos ao fato de Madonna utilizar uma arma, em especial a última parece estar a ter mais destaque.

Porque é que é tão controverso ver uma mulher com uma arma? O mesmo aplica-se a outras minorias, como negros, espânicos, asiáticos e membros da comunidade LGBT.

Porque é que se for alguém destes grupos utiliza armas, ou tem a mesma atitude violenta que um homem branco e hetero sexual, a opinião pública fica furiosa?

Vou dar um exemplo no mundo cinematográfico. Quentin Tarantino, um dos meus realizadores favoritos, quando “Inglourious Basterds” foi lançado, ninguém disse nada e não foi particularmente criticado pela sua violência. Será que foi por causa de ser um grupo de brancos a matar Nazis? God Bless America indeed! Mas no entanto filmes como “Jackie Brown”, “Kill Bill” ou “Django”, que têm como personagens principais mulheres ou afro-americanos, foram criticados pelo seu excesso de violência e de distorcer a história. Bem em “Inglorious Basterds”, Hitler morre num cinema, no entanto, ninguém criticou o facto de distorcer fatos verídicos.

Tudo o que basicamente quero dizer é que, e voltando ao caso das FEMEN, porque é que as mulheres são criticadas por se expressarem da maneira que melhor acharem, tendo em conta que querem criminalizar o “piropo” como se fosse violação – o que acho que é parvo, um piropo dito de uma janela ou de um carro, não é o mesmo que digamos um ato de VIOLAÇÃO! – e quando querem impedir o ato da amamentação em público, que é um ato completamente normal.

Talvez graças a este video Madonna volte a lançar algo inspirador, o seu último bom álbum foi “Confessions On The Dance Floor”, “Hard Candy” foi mehhhhh e “MDNA” tem algumas pérolas.

Tendo em conta que a cantora já admitiu estar a trabalhar no novo álbum, pode ser que as minhas preces sejam ouvidas.

Em baixo pode ver a entrevista e a curta metragem:

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