Como Eu Ouço

A essência do caos 

Numa geração em que somos diariamente assaltados por lixo televisivo que promove a edificação de trivialidades, ainda podemos ser surpreendidos de quando em vez por fenómenos que se dão dentro de supostos fenómenos. Qualquer amante de música que se emocione ao assistir ao casamento perfeito entre uma técnica brilhante e uma alma transcendente se atreve a espreitar alguns talent shows que nos podem permitir contrariar a consciência que nos assola de que não basta cantar bem para poder trilhar uma carreira artística no ramo. Pelo menos, com a credibilidade necessária para que se acrescente algo mais do que uma voz de extensão assombrosa e afinação invejável.
Poderia nomear os delfins Jack Vidgen e Rachel Crow como promessas incontornáveis, a veterana Stacy Francis que recria Purple Rain como ninguém, ou até a incompreendida e singular Erin Martin que sonoriza Hey there Delillah numa paisagem original. No entanto, apenas uma concorrente deste género de certame me deixou com a sede inabalável de querer ouvir mais por crer na sua identidade artística. Desenganem-se ao pensarem que ela poderá sequer atingir notas desumanas ou fazer trinados de forma competente.
Lindsey+Pavao+Lindsey
Lindsey Pavao é uma jovem de 22 anos que prestou provas na segunda temporada do programa The Voice americano. A sua inocência relativamente à forma como nos devemos apegar à arte e tê-la como algo auto-suficiente deixa-nos vislumbrar um ser de sensibilidade densa e inspiração compulsiva. Se nos abstrairmos da mera capacidade vocal dos concorrentes e tentarmos projectá-los como artistas dos quais os discos compraríamos, percebemos que muitas vezes há uma enorme falta de individualidade, carisma e identificação. O nosso ouvido procura muitas vezes uma alma que não necessita de muitas notas para se fazer compreender, e foi precisamente a capacidade de tornar seu tudo aquilo que interpretava que levou Lindsey a ser uma das concorrentes favoritas de sempre dos cibernautas.
No sua primeira audição, Lindsey chamou a atenção de Blake Shelton, Cee-lo Green e Christina Aguilera ao redesenhar de forma abismal o tema Say Ahh de Trey Songz, tendo acabado por ficar com a última jurada como sua mentora. Se escutarmos o tema original e a versão da jovem cantora, rapidamente compreendemos o porquê de tantos seguidores ao longo do mundo tentarem recriar a sua versão da mesma.
É precisamente a capacidade de reinventar e enobrecer temas de qualidade duvidosa que torna Lindsey numa artista cativante e aditiva. A influência de artistas como Fiona Apple ou Radiohead são perceptíveis na sua voz e não deixa de ser surpreendente a presença de alguém com tais referências num programa direccionado a massas que ouvem Rihanna ao pequeno almoço e One Direction ao jantar.
Pavao está agora a gravar o seu primeiro trabalho discográfico com fundos que recolheu através da plataforna Kickstarter. A sua ligação com os seguidores que adquiriu tornou-se simpática a partir do momento em que disponibilizou um EP totalmente gravado na garagem do seu irmão. Ao mesmo tempo, Lindsey tem vindo a colocar covers no seu canal do YouTube que lhes são sugeridos por quem teve a decência de amar a sua arte a ponto de lhe fazer um donativo. Lucid é composto por cinco temas dos quais se destacam Archer and the arrow e Chapel.
De tantas vozes prodigiosas e arrepiantes, nunca mais consegui esquecer a deliciosa interpretação desta pequena raridade que descobri num lugar onde pensava apenas haver espaço para competições de oitavas. Na simplicidade do que não tenta ser excepcional encontramos a honestidade que muitas vezes falta a quem quer chegar até ao coração de quem ouve. Aguardo por um trabalho que se afigura autêntico e demasiado real para que possa agradar a todos. Agradará certamente, a todos os que escutam a alma de quem sente o que faz pelas motivações devidas.

 

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