Subtilmente, para sempre

No universo dos rótulos faceis, Elizabeth Caroline Orton seria apenas mais uma cantautora. Se a escutarmos superficialmente, encontraremos uma obra repleta de baladas dolentes e hinos cautelosamente redentores, muitas vezes talhados na guitarra acústica e vestidos por uma secção de cordas. No final dos anos 90, Orton gravou com nomes sonantes como Ben Harper, Ryan Adams ou Jim O’Rourke, mas foi pela mão do produtor William Orbit, num remix do clássico de John Martyn “I don’t want to know about evil”, que a sua voz seduziu os demais. As suas músicas têm tanto de cativante como angustiante, sendo que Orton sabe ser romântica e atrevida, puritana e experimental, selvagem e folk – mesmo que em todas estas características nunca se circunscreva inteiramente ao rótulo de cantautora.  Os seus dois primeiros registos, Trailer Park e Central Reservation, são filhos pródigos de uma era em que o casamento entre a pop e a folk, apadrinhados por texturas electrónicas, nos proporcionava uma paisagem acolhedora do que seriam os sons do futuro.


Depois do esporadicamente interessante Comfort of Strangers de 2006, Orton cumpre a promessa dos seus primeiros registos, regressando com o mais belo, coeso e edificante de todos os seus trabalhos. Sugaring Season, surge mais de meia década depois do seu antecessor e contempla uma aprazível ausência de desvios inesperados ou tangentes supérfluos, sendo composto por 10 músicas de doce resiliência, interpretadas magistralmente pela expressividade casual de uma Beth que soube envelhecer. O resultado imaculado de tão estimada obra é também consequente de uma escolha minuciosa de profissionais de excelência – o guitarrista Marc Ribot, o baixista Sebastian Steinberg, ou o baterista Brian Blade, são um mero exemplo – que permitiram a Orton enobrecer a simplicidade relativa com que desenhou tais universos. Produzido pelo multi-instrumentista Tucker Martine (Decemberists, Laura Veirs, Bill Frisell), Sugaring Season é o pretexto que faltava aos fãs de Orton para que se voltem a apaixonar por uma artista claramente mais ciente do seu papel na industria musical e mais confiante nas suas capacidades interpretativas.

A principal evolução consiste no facto de já não existir qualquer temor em relação a uma maior libertação vocal, o que confere a Beth uma sublimação da sua entrega enquanto estilista das palavras. Uma audição superficial de temas como Magpie, Candles ou State of Grace apresentam-nos uma nova maneira de se envolver com o coração dos seus escritos, sendo que Orton parece não levar a tão a sério a saudade que sempre a caracterizou e até ter aprendido a rir-se de si própria, como podemos constatar em See through blue. Sugaring season explora uma gama emocional que parecia ter abandonado o trabalho mais recente de Orton e faz com que ela surja com um sentido de direcção que há muito lhe era exigido pelos seus ouvintes. Call me the Breeze reúne a descontracção de Bert Jansch e o brilho das melhores colheitas de Neil Young. Em Poison tree, Orton convida o cantor folk Sam Amidon para fazer uma recriação ambiciosa do tema de William Blake, sendo que o artista tem como função abrilhantar o que já se afigurava simplesmente excepcional.

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Sugaring Saeson é muito mais do que poderíamos exigir de alguém que já nos abençoou com obras tão dignas como Trailer Park e Central Reservation. Um punhado de boas canções, arranjos intemporais e uma entrega vocal que sobe as expectativas em relação ao que Beth Orton nos poderá proporcionar.

Um simpático reflexo do crescimento artístico de uma cantautora que aprendeu a submeter o instrumental à sua voz em vez do inverso.

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