Autor de sucessos. Portugal rendeu-se ao seu trabalho em 2005. Bastava aos portugueses seguirem a então novela da TVI que o enchiam de orgulho. Brasileiro com raízes lusas, chegou à televisão pela mão da RTP e só abandonou a escrita em Portugal com um convite da Globo, em 2011. A sua primeira novela a solo no canal, Boogie Oogie, tem estreia marcada para este verão e promete levar os telespectadores aos ritmados anos 70. Voltar a Portugal só para férias. No Brasil tem a ambição de escrever para cinema e captar novos públicos. Com novelas marcantes como Terra Mãe, Ninguém Como Tu ou Tempo de Viver, conheça agora o homem por detrás das histórias de sucesso: Rui Vilhena.


O início e o percurso em Portugal

Houve, talvez, um excesso de ficção em horário nobre. Nesse horário há sempre novela. Tudo tem o seu tempo, se calhar esgotou e agora as pessoas não querem ver uma novela atrás da outra.

QC – Quem é o Rui Vilhena? O guionista que muitos portugueses conhecem?

RV – O Rui Vilhena é uma pessoa como todas as outras, sou uma pessoa normal, que acorda, trabalha, sonha, não há muita diferença entre o Rui Vilhena e o resto das pessoas que vagam por aí.

Como é que chegou ao guionismo, à escrita de telenovela?

Com 15 ou 16 anos entrei num grupo de teatro, comecei a trabalhar como ator, mas havia alguma coisa ali qualquer que me satisfazia. Quando fui viver nos Estados Unidos, fiz um curso de guionismo e vi que era realmente aquilo que gostava. Depois é como dizem os brasileiros, a ficha caiu, e foi aí que percebi que é uma coisa que eu faço desde pequeno: contar a história.

Sendo brasileiro, porque veio trabalhar para Portugal?

Quando terminei a minha faculdade eu pensei que não queria ficar por aqui. Depois decidi voltar para os Estados Unidos e quando me formei lá, pensei, bom ou eu volto para o Brasil (eu vivi 12 anos nos Estados Unidos) ou vou fazer uma coisa diferente. Foi nessa altura que fui para Portugal, não me apetecia vir para o Brasil porque isso era voltar para o passado, para uma coisa que eu deixei, não havia novidade. Para Portugal era tudo diferente, também sou português, tinha família lá, fez sentido.

Atualmente a TVI, estação para o qual escreveu alguns anos, encontra-se a adaptar novelas de sucesso em outros países. Qual a sua opinião relativamente à adaptação de textos?

O principal é que tenhamos uma boa história no ar, uma história que seduza o público. Eu ponho-me no lugar dos canais que adaptam histórias, eu só vou comprar adaptações lá fora se o produto que eu tenho não me agrada. Porque se eu tenho histórias aqui que aparentemente são melhores do que aquelas que estão a ser feitas lá fora eu vou jogar pelo seguro, vou apostar num formato que já fez muito sucesso lá fora e não vou arriscar numa história daqui. Isso é tudo muito relativo, porque uma adaptação é muito difícil. É mais fácil escrever uma história minha do que adaptar a história de outra pessoa. Portanto, enquanto guionista, posso garantir que é mais complicado.

Em termos audiométricos e apesar de liderarem, as novelas têm vindo a perder telespectadores. Acha que Portugal está a caminhar para a saturação deste tipo de ficção?

Eu acho que tudo tem o seu tempo, é assim, o horário nobre em Portugal foi muito dominado pela ficção talvez, depois de tantos anos, as pessoas estejam à procura de outros programas. O Brasil tem uma coisa muito boa, os autores são todos muito diferentes. As novelas são diferentes… eu não sinto muito essa diferença aí. Houve, talvez, um excesso de ficção em horário nobre. Nesse horário há sempre novela, se tivéssemos novela, séries, sitcom, novela, minisséries, talvez tivesse sido diferente. Eu acho que tudo tem o seu tempo, se calhar esgotou e agora as pessoas não querem ver uma novela atrás da outra. Novamente, o canal tem as pesquisas, para saber melhor para onde é que o público começa a ir…

 Que tipo de ficção faz falta a Portugal?

Eu não tenho uma bola de cristal mas, a experiência diz-me que num momento como esse do que as pessoas precisam é de se divertir, portanto, nesse momento eu, se fizesse uma novela em Portugal, obtava por fazer uma comédia, situações cómicas, não acho que as pessoas queiram ver algo pesado.

Alguma vez se inspirou em novelas da Globo para escrever as suas próprias tramas?

Tudo aquilo que eu escrevo é inspirado em tudo aquilo que eu quero, eu acredito no país das telenovelas. Eu acho que as novelas brasileiras fazem parte do ADN portanto, o estilo. Quando eu fiz Ninguém Como Tu, que era uma novela em que a cena estava muito rápida, o que nunca tinha sido feito numa novela em Portugal, aquela velocidade, era uma coisa que já havia na Globo há muito tempo. Não só na Globo, mas também nos Estados Unidos, Inglaterra, Espanha, portanto, é óbvio que já houve inspiração nas novelas da Globo como também nas séries americanas, nas séries inglesas, porque eu costumo ver muita coisa.

Em Portugal, qual é o autor que mais se destaca na ousadia dos temas e na forma de escrita?

Eu não vou responder a essa pergunta para não criar polémicas, para não deixar nenhum nome de fora. Não faz o meu estilo falar dos meus colegas, acho deselegante, portanto, se há um que eu admiro mais os outros vão ficar de lado. Para não ser deselegante eu não vou ficar de nenhum.

Foi o responsável por um dos maiores sucessos televisivos de sempre em Portugal com a novela Ninguém como Tu. Pretende alcançar o mesmo feito na Globo?

O maior desafio é para mim próprio, é óbvio que eu estou a trabalhar para que seja um grande sucesso, sem dúvida nenhuma.

Que novela portuguesa o marcou mais? Porquê.

Todas me marcaram mas Ninguém Como Tu foi uma novela que marcou muito. Lembro-me que quando Tempo de Viver estreou houve muitas pessoas que reclamaram porque estavam à espera de ver uma novela ao estilo de Ninguém Como Tu. Havia uma linguagem em Tempo de Viver que era muito frontal, muito árdua, muito prática, que não havia em Ninguém Como Tu.
E eu lembro-me que no início algumas pessoas repararam nisso. Mas o curioso é que apesar de Ninguém Como Tu ter sido um grande sucesso, hoje o que eu penso é que a novela que as pessoas mais gostaram foi Tempo de Viver. Isso para mim é curioso. De qual eu gosto mais isso para mim não existe. Adorei fazer Os Bastidores para a RTP, Terra Mãe foi a minha primeira novela e eu recordo-me que houve uma quantidade de jovens no elenco, coisa que não havia. Tinha de se fazer casting, porque acho que 70% do elenco tinha menos de 25 anos. Eu posso ser acusado de tudo mas quando começo um trabalho tem de ser completamente diferente para mim. Não posso fazer uma coisa que já fiz.

Há cada vez mais atores jovens no mundo da representação. Acha que neste momento e mesmo na altura em que estava em Portugal, há espaço para integrar estes novos talentos na ficção portuguesa?

O mercado português é muito pequeno e a crise faz com que o elenco seja reduzido. Aqui no Brasil está em vigor a lei do audiovisual. Os canais são obrigados a passar em horário nobre entre 50 minutos a 1 hora de ficção nacional. Depois de dois anos da lei em vigor, alargaram essa margem e isso mexeu muito com o mercado. Se os canais internacionais como a Fox ou HBO fossem para Portugal e passassem uma ou duas horas de ficção nacional por noite isso iria mexer muito com o mercado. É uma medida que devia ser implementada em Portugal porque daria mais espaço para jovens atores, técnicos e autores. O mercado é mesmo muito pequeno.

Há cada vez mais atores portugueses a ganhar terreno na ficção brasileira e até no teatro. Como é visto esse talento português no outro lado do Oceano?

Super bem! Muito bem mesmo. O Ricardo Pereira, o Paulo Rocha são todos muito bem recebidos. Gosto muito deles.

E são cada vez mais os atores portugueses a escolher o Brasil para formação. Acha que os brasileiros estão recetivos aos atores portugueses?

As novelas da Globo chamam muitos atores estrangeiros. Houve uma novela com um ator italiano. Algumas novelas do Miguel Falabella e do Aguinaldo Silva já tiveram atores portugueses. A Globo é muito recetiva nesse sentido até porque é interessante para beliscar outros mercados. Se bem que agora em Portugal as novelas também começam a ter atores brasileiros. Na minha altura não, mas agora já há essa abertura. Mas respondendo à pergunta: acho que sim.

José Eduardo Moniz saiu da TVI em 2009 e regressou agora enquanto consultor para a ficção do grupo Media Capital. É uma boa decisão voltar a apostar no ex-diretor-geral?

Se há uma pessoa que percebe muito do assunto, é uma boa aposta! É o mesmo se me perguntasse se o Ronaldo era uma boa aposta para um clube qualquer. Claro que é uma boa aposta!


O regresso ao Brasil e o futuro

O mais importante para mim também não é ficar só no universo das novelas. Já fui convidado para o cinema também. Há a possibilidade de explorar novos terrenos o que para mim é fundamental.

Como surgiu o convite para ir trabalhar na TV Globo?

Foi através do Aguinaldo Silva. Conhecemo-nos em Portugal na altura em que ele tinha a Senhora do Destino e eu tinha a Ninguém Como Tu, na TVI. Ficámos grandes amigos e, a partir daí, as coisas foram acontecendo.

 Qual é a maior diferença entre escrever novelas em Portugal e no Brasil?

Hoje em dia, o que eu vos posso dizer é que a diferença mais gritante é no que toca ao tempo. Eu estou a trabalhar numa novela desde setembro de 2013 que só vai estrear em agosto. É preciso tempo para os autores, para a equipa de produção e isso faz muita diferença.

 Começará por escrever no horário das 18h. Ambiciona ocupar um lugar de honra dentro da estação, com as suas tramas a serem produzidas para o horário das 21h?

Se me perguntar se é uma coisa em que eu paro para pensar: não é. Eu acho que as coisas surgem naturalmente. Para mim o mais importante é sempre fazer um bom trabalho. Por agora estou às 18h. Se passar para o horário nobre, ótimo. Vou continuar a fazer o que mais gosto. O mais importante para mim também não é ficar só no universo das novelas. Fiz uma curta-metragem agora, já tenho alguns pedidos para escrever peças de teatro. Já fui convidado para o cinema também. Há a possibilidade de explorar novos terrenos o que para mim é fundamental.

  Já é certo que vai escrever para o grande ecrã?

Eu neste momento estou a fazer novela. Se mais tarde me surgirem convites como me surgem nas novelas, espero que sim. É uma coisa que eu quero fazer e o mercado aqui no Brasil está numa boa fase.

 Irá estrear-se a solo na Globo com uma novela de época. Não acha que é arriscar demais tendo em conta que as tramas de época às vezes acabam por ser rejeitadas pelo público, tal como sucedeu com Lado Lado, vencedora do Emmy Internacional?

Estou a fazer uma novela de 1978, na Era da Disco onde havia aqui no Rio de Janeiro uma maneira e uma forma de estar diferentes e é isso que quero passar. Quero que quando as pessoas se sentem para ver a novela que pensem que a festa vai começar. Toda esta cultura dos anos 70 influencia a atualidade, tem a moda, os comportamentos ou a música. Por exemplo, os discos da Madonna estão muito ligados ao que se fazia nessa época. Foi uma década muito rica e para as pessoas que a viveram vai ser muito divertido. Para os mais jovens vai ser interessante perceberem como se vestiam e como se comportavam.

O horário limita a escolha de grandes nomes?

Não. Eu tenho na minha novela um elenco de luxo, de horário nobre.

 Que nomes fazem parte desse elenco?

Alguns já saíram na imprensa. Temos nomes como Déborah Secco, Alexandra Negrini, Heloísa Périssé, entre muitos outros grandes atores. É um elenco mesmo de luxo!

 Como surgiu o nome da novela – Boogie Oogie – e em que se baseia a história?

Da história não posso revelar muito. Como se passa nos anos 70 fazia sentido porque quase todas as música da época tem a palavra Boogie. Há até uma música dos A Taste Of Honey que é Boogie Oogie e acabou por ficar com esse nome.

 Que novela global o marcou mais?

Essa é a pergunta difícil. Há tantas, muitas mesmo! Desde Vale Tudo, Tieta, Roque Santeiro, Dancin’ Days… há tantas. Seria até injusto porque são mesmo muitas! Quando se nasce num país de telenovela, cresce-se a ver telenovela.

 Para quando um regresso a Portugal?

Na verdade eu estou sempre em Portugal. Para trabalho, não sei. Neste momento tenho contrato de exclusividade com a Globo e estou muito feliz aqui. Agora não estou em Portugal porque estou a escrever a novela mas quando acabar, no próximo ano, vou descansar em Portugal.

 Uma mensagem para os nossos leitores.

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