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Entrevista – Marco Rodrigues: “Era a altura ideal para fazer um disco destes”

O Quinto Canal esteve à conversa com o fadista Marco Rodrigues e ficámos a saber mais sobre a sua personalidade e carreira. Fique a saber mais sobre este artista nacional em mais uma entrevista exclusiva.

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Marco Rodrigues, 35 anos. O fadista começa a entrevista dizendo que aos 34 anos foi o homem mais feliz do mundo com o nascimento do seu filho Bernardo, há cerca de um ano e nove meses. Nascido em Amarante, foi viver aos oito anos para Arcos de Valdevez e foi lá onde teve o primeiro contacto com a música. O seu pai é músico e tinha um grupo musical que ensaiava na garagem da sua casa, pelo que a música foi sempre uma constante na sua infância. “Houve um dia em que fui ao ensaio do meu pai e de repente comecei a fazer uma segunda voz e ele achou interessantíssimo e então comecei também a cantar no grupo do meu pai”.

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Estou a passar uma das fases mais preenchidas e mais felizes da minha vida com o nascimento do Bernardo.

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Entre os 8 e os 15 anos, Marco fez parte do grupo, tocava alguns instrumentos e fazia arraiais, festas, batizados, casamentos. Aos 15 anos, mudou-se para Lisboa com a sua mãe e teve o seu primeiro contacto com o Fado. “No final dos anos 90 o Fado estava deitado praticamente ao abandono e o que conseguia segurar essa música eram mesmo as pessoas no bairro e as casas de Fado”. A sua mãe, ciente do talento de Marco inscreveu-o numa Noite de Fado, que acabou por ganhar.

Foi por essa altura que também foi a uma casa de Fado pela primeira vez e foi então que se apaixonou por este género musical, o ambiente, o som acústico da guitarra portuguesa e a interpretação dos fadistas: “Era quase um contraponto entre aquilo que eu vivia, a experiência que eu tinha a nível musical – que eram os arraiais onde as pessoas estavam todas a dançar e todas contentes – e uma casa de Fado – em que é um ambiente muito mais solene”.

Mais do que ser um cantor, Marco queria ser músico. O fadista confessa que sempre teve alguma sensibilidade para a música e queria que a mesma fazia parte do seu dia-a-dia: “Ser intérprete é fantástico. A partir do momento em que comecei a ser intérprete e a perceber o poder da palavra acho que encontrei a matriz da música que eu faço”.

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Era a altura ideal para fazer um disco destes

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Em 2006 gravou o primeiro disco, seguido de outros em 2008, 2013, 2015, e agora o quinto intitulado Copo Meio Cheio e só tem razões para estar feliz. “Em primeiro lugar tenho um disco que ao contrário dos outros, não é um assumidamente de Fado […] Eu convidei pessoas que nada têm a ver com esse ambiente, como o Carlão, a Capicua e como a Luisa Sobral. O desafio era esse: eles saírem da margem de conforto […] e fazerem um fado tradicional (com algumas regras) e eu no fundo sair da minha zona de conforto”. Para Marco Rodrigues, sair da sua zona de conforto significou ter que interpretar letras que dificilmente seriam encontradas no dicionário fadista: ” Caminhas pela rua à patrão, Com uma pinta que hoje se chama swag…”

“Este disco traz também um outro tipo de público que não está desperto tanto ao Fado tradicional […] O que eu quis com este disco […] foi fazer um disco em primeiro lugar diferente e em segundo lugar que fosse desafiante e que fosse exatamente isso – uma coisa positiva, um disco alegre, um disco que transmitisse essa positividade de um copo meio cheio”. Entre os artistas com quem já colaborou, encontram nomes como Diogo Piçarra, Agir, Marisa Liz e Tiago Pais Dias (Amor Electro), Pedro da Silva Martins (Deolinda), Carlão, Boss AC, Luísa Sobral, Guilherme Alface e João Direitinho (ÁTOA) que serviram também como impulsionadores do desafio que o artista colocou a si próprio. Marco confessa que queria sair da sua zona de conforto e que se colocasse à prova e que o reconhecimento do seu trabalho ao longo destes anos tem sido bastante positivo.

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A música não quer pessoas que a usem, quer pessoas que a sirvam

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Na sua perspetiva, “as partilhas musicais são das coisas mais enriquecedoras que um artista ou quem um intérprete pode ter”. Durante a nossa conversa, Marco recordou também a colaboração que teve com Maria Gadú e as várias colaborações com Carlos do Carmo, dando ênfase também a duetos com artistas internacionais sul americanos. Olhando para o passado, Marco assume que já fez colaborações com imensos artistas mas que existem ainda tantos outros com quem gostaria de partilhar o palco.

“Já tive experiências fantásticas, de me sentir um gigante em cima do palco com milhares e milhares de pessoas a aplaudir-me […] e eu sentir-me uma ervilha e paralelamente estava a sentir-me um gigante”. Marco recordou ainda as peripécias da sua infância quando cantava em cima de carroças de tratores e em palcos mal cobertos nos quais que utilizava uma vara para tirar as poças de água do tecto do palco porque era um risco demasiado grande de a água cair em cima dos instrumentos. Muitas das peripécias que viveu durante essa fase da sua vida fizeram com que Marco olhasse para a sua profissão e para o seu percurso de uma forma diferente. “Hoje em dia sinto um orgulho enorme em chegar a uma sala como o Coliseu, o CCB e fazer um concerto e ter o meu camarim […] coisas que anteriormente não existiam.

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Não tenho muito tempo para ver televisão porque o meu hobby preferido é ser pai

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Marco Rodrigues é um artista humilde. Esta é a principal palavra que fica na memória depois de pacientemente responder às nossas perguntas e de nunca ocultar a sua origem e a felicidade enorme que é ser pai. A própria maneira como descreve a sua relação com a equipa técnica é a prova do enorme respeito que o artista tem por quem ajuda na realização dos seus concertos. “Uma das coisas que mais gosto de fazer é chegar aos teatros ou às salas onde vou fazer os concertos e cumprimentar todas as pessoas, toda a equipa técnica do próprio teatro. Eu sei bem o que é andar a carregar aparelhagens e montar tudo para que se possa fazer uma atuação a seguir”.

O reconhecimento do fadista a nível internacional chegou há cerca de dois anos, quando a participação num disco de música tradicional cubana abriu essa porta. Em 2016 Marco Rodrigues acabou por ser nomeado pela segunda vez a um Grammy Latino, desta vez pelo seu disco. “Fiquei super feliz. […] Para além do meu próprio reconhecimento, é quase um reconhecimento do Fado, da nossa cultura, de Portugal”.

Sobre a participação de Portugal na Eurovisão, Marco Rodrigues destacou o enorme talento de Salvador Sobral. “A música é genial, o arranjo é fabuloso, o arranjo de cordas está fabuloso…” foram as palavras do fadista sobre a escolha da música. “Salvador é um talento enorme enquanto intérprete, não há ninguém que não fique preso quando ele está a cantar”. Todo o festival pirotécnico que antecedeu a participação de Salvador mostrou a enorme carência de existir uma música de verdade e além da grande interpretação da mesma, o que mais cativou foi ser realmente uma melodia que pudesse captar a atenção de quem queria algo mais do que um festival de luz e cores.

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Mais do que a televisão poder apresentar música acho que a nível de cultural era preciso também cultivar um pouco essa coisa de as pessoas utilizarem a música como um hobby de quem está sentado à espera

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Marco Rodrigues confessou que todo o tempo livre que tem tenta ocupar com o filho. Apesar de acompanhar por gosto vários campeonatos europeus de futebol – admitiu ser um fã da modalidade – desde que foi pai não conseguiu mais ver um jogo do princípio ao fim. Além de futebol, o fadista gosta de ver documentários, ver reconstruções de cenas reais e perceber o porquê por detrás da ocorrência de alguns acontecimentos.

Quando questionado sobre se poderia haver um maior destaque dado ao mundo da música na televisão, Marco admite que poderiam existir mais programas a falar de música mas diferentes. “Acho que faz falta um Top +, que deixou de existir, e que era quase um barómetro e era uma coisa a que as pessoas estavam habituadas todos os fins-de-semana […] Temos um pouco o hábito de utilizar a música como um hobby de sofá – eu estou sentado no sofá à espera que me chegue a música da rádio, à espera que me chegue a música da televisão […] mesmo hoje em dia nós temos motores de busca fantásticos para procurarmos toda a música que existe no mundo”.

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Dedicar-se, disponibilizar-se, trabalhar, ter que se sujeitar muitas vezes a algumas coisas e nunca perder noção daquilo que se quer

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Marco Rodrigues enalteceu que para se fazer qualquer profissão, para construir qualquer coisa, durante o período em que se trabalha nisso tem que se trabalhar de forma apaixonada. Para quem pretende seguir esta carreira, o fadista aconselha a que caminho seja motivado pela paixão à música, seja do género que for. E se não nos dedicarmos, trabalharmos e nos sujeitarmos não estaremos a fazer o nosso percurso com paixão. E se há coisa que não podemos duvidar é da enorme paixão que o fadista tem pela sua profissão – tanto a cantar como a de pai.

Marco concluiu a nossa entrevista a desejar um natal fantástico à nossa equipa e a todos os nossos fãs, com amor e com as pessoas de quem mais gostamos, e um ano de 2018 cheio de coisas boas. “Para mim as duas coisas principais é a saúde e a sorte, o resto nós temos a obrigação de as conquistar”!

O fadista vai estar a atuar em Beja, no Teatro Pax Julia, no dia 19 de dezembro onde vão estar presentes também Guilherme Alface e João Direitinho (ÁTOA) que participaram no recente disco do artista. Para acompanhar o seu percurso, pode seguir o artista no Facebook.

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Texto: Inês Calhias
Imagens: Arlindo Camacho
Agradecimentos: Universal Music Portugal

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